quarta-feira, 29 de abril de 2026

Resenha: "A Hora da Estrela", de Clarice Lispector

A HORA DA ESTRELA
Autora:
 Clarice Lispector 
Número de páginas: 88 (incluindo posfácio sobre a autora e sobre a obra)
Editora: Rocco
Nota: 4/5⭐️

 

Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isso é ser uma pessoa?

 

Oi, pessoal! Quanto tempo não apareço por aqui, não é? Mas voltei, trazendo a resenha de "A Hora da Estrela", primeiro livro que leio de Clarice Lispector! Assisti ao filme em dezembro do ano passado, então já sabia de algumas coisas do enredo, e creio que tenha sido uma boa adaptação.  


Nesse sentido, a história é narrada por Rodrigo S.M, que certa vez viu, nas ruas do Rio de Janeiro, de relance, "o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina", e, a partir disso, desenvolve a sua história, dizendo que ela é "verdadeira, embora inventada". 


Assim nasce Macabéa, uma jovem de 19 anos, datilógrafa, oriunda do sertão de Alagoas e que fora ao Rio de Janeiro para "tentar a vida". Morava em um quarto compartilhado com outras quatro moças, e tinha a vida extremamente simples. Era uma menina ingênua e passiva, vista como insignificante aos olhos da sociedade e até pelos seus próprios olhos. Não levava jeito para a datilografia, era raquítica de corpo, não tinha grandes ambições na vida, teve uma infância difícil sendo maltratada pela tia que a criou, foi trocada por seu namorado, Olímpico, pela sua "amiga" de trabalho, e aceitava passivamente a própria condição. Talvez por não saber que era uma vida difícil. Talvez por não acreditar que merecesse algo melhor. Talvez porque acreditasse que, se a vida lhe impôs tal condição, devesse ser assim. E imersa em sua ingenuidade, ia levando os dias, acompanhando o que passava na Rádio Relógio, fazendo coleção de anúncios de jornal, tomando um gole frio de café antes de adormecer, entre outras pequenas singelezas que a consolavam e que a faziam crer que levava uma vida feliz. 


Mas Macabéa não se preocupava com próprio futuro: ter futuro era luxo. Ouvira na Rádio Relógio que havia sete bilhões de pessoas no mundo. Ela se sentia perdida. Mas com a tendência que tinha para ser feliz logo se consolou: havia sete bilhões de pessoas para ajudá-la. 




A escrita de Clarice é permeada por vários momentos de reflexão existencialista, notoriamente de interrupções narrativas e reflexivas feitas pelo autor de Macabéa. Em diversos momentos, Rodrigo S.M pondera a respeito de si mesmo e a respeito de sua protagonista e sobre os outros personagens (que são poucos), fazendo reflexões que impactam aquele que o lê. 


[...]  É que desde menino não passava de um coração solitário pulsando com dificuldade no espaço. [sobre Olímpico]


Aliás, não senti dificuldade com a linguagem, e gostei do ar introspectivo que rodeia as páginas da obra, que soa como prosa poética. Clarice escreve bonito. Um exemplo foi quando a personagem pede uma aspirina para sua colega de trabalho, Glória, e a colega lhe pergunta por que ela sempre pede tanta aspirina. A protagonista, então, lhe responde: "É  para eu não me doer", e, ao ser solicitada explicações, diz "Eu me doo o tempo inteiro". Um jogo de palavras entre dor e doar-se, muito bem feito e bem colocado, visto que a personagem, em sua ingenuidade, doava-se àqueles por quem nutria afeto, como o caso de Olímpico, que a trocou por Glória. Portanto, repito: Clarice escreve bonito, e eu gosto de quem escreve bonito. Em certos momentos da narrativa, inclusive, o estilo de escrita de Clarice me lembrou do de Hermann Hesse, embora com óbvias particularidades, é claro. 


[...] Vivemos exclusivamente no presente pois sempre e eternamente é o dia de hoje e o de amanhã será um hoje, e a eternidade é o estado das coisas neste momento. 


Portanto, "A Hora da Estrela" está recomendado para aqueles que desejam iniciar no universo de Lispector e que buscam uma narrativa reflexiva acerca da nossa própria existência e da realidade social do Brasil. Afinal, como bem pontua Rodrigo S.M no início da obra, "Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhado até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam. Poucas se queixam e ao que eu saiba nenhuma reclama por não saber a quem. Esse quem será que existe?"


"A vida é um soco no estômago". 



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