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domingo, 29 de junho de 2025

Alguma canção já marcou a sua vida?

junho 29, 2025 0 Comments

AS CANÇÕES
Diretor:
 Eduardo Coutinho
Ano: 2011
Nota: 4,7/5 ⭐
Onde assistir: Netflix


"Documentário" nunca foi um gênero cinematográfico sobre o qual me debruçasse com frequência, embora vez ou outra algum chamasse a minha atenção e eu demonstrasse curiosidade sobre esse tipo de filme ou série. Entretanto, recentemente estou assistindo mais documentários do que o meu habitual, um atrás do outro - e querendo ver mais! Um dos responsáveis por isso é o diretor brasileiro Eduardo Coutinho. O primeiro filme que vi dele foi o maravilhoso "Jogo de Cena". O segundo e igualmente maravilhoso foi "Edifício Master". E o terceiro é aquele sobre o qual falo nesse texto: "As Canções", lançado em 2011. Mas não irei parar nele, pois em minha lista ainda há outras obras do diretor que pretendo visitar. 


Com relação aos três longas vistos por mim (até o presente momento), todos compartilham o fato de retratarem histórias de pessoas comuns, dessas histórias que cativam e atraem o nosso olhar pela sinceridade com que são narradas e pela vida que transbordam da tela. Poderiam, facilmente, ser de rostos que banalmente cruzamos nas ruas. Poderiam ser nossas também. E tudo é gravado de modo simples, talvez influenciado pela visão de que as histórias são maiores do que os filmes em si. E isso basta. 


"As Canções" retrata tais histórias através da relação das pessoas com músicas que marcaram as vidas delas. Nesse aspecto, me lembrei bastante de meus avós, pois muitas das canções cantadas (sim, cantadas!) pelas pessoas que relatam suas vivências são músicas que eles gostam e também cantam, como "Esmeralda". Assim, conhecemos um pouco daqueles indivíduos, que se revelam para as câmeras por meio da própria narrativa e das emoções que evocam com suas canções. Saudosamente, há quem chore, há quem sorria, e o telespectador sente um pouquinho também, do outro lado da tela. São histórias de amor (em sua maioria, românticas): há a mulher que nunca esqueceu um grande amor da juventude, o filho que escreveu uma belíssima canções em memória da relação com o falecido pai, o homem que reatou um relacionamento influenciado por uma música de Jorge Ben Jor, a mulher que lida com o divórcio de um importante amor, etc. Ouvir tais histórias é um ato de empatia, é ver beleza no aparentemente banal que a vida é, é mergulhar em 91 minutos de filme e nem sentir o tempo passar. 


Além de tudo isso, "As Canções" acaba por, talvez sem querer querendo, deixar reflexivo o telespectador acerca da própria vida, das pessoas ao redor e das músicas que carregamos no peito. É como se, indiretamente, fosse feita a quem assiste ao longa a mesma pergunta que fizeram na produção do documentário, buscando pessoas para participar do filme: "Alguma música já marcou a sua vida? Cante e conte a sua história". E isso nos deixa pensativos, também, sobre o poder da música em nossa vida, em nosso cotidiano. 


Engraçado que sei exatamente sobre qual música eu falaria se fosse participar do documentário: "Amor I Love You", da Marisa Monte. Não é minha música favorita dela, mas comecei a ouvir Marisa Monte por causa dessa canção, além de ter marcado muito a minha vida e ser, com certeza, a música que mais cantei. Ela me lembra da minha mãe (da minha família, como um todo), mas, especialmente, ela me lembra de mim mesma. Nunca esqueço a letra, por mais tempo que passe sem escutá-la. "Pássaro de Fogo", de Paula Fernandes, por sua vez, me lembra da minha infância e de meu avô, que sempre pedia que eu cantasse as duas músicas que citei pra ele... 


Outras canções também poderiam fazer parte da minha lista de músicas marcantes, como "Trouble", do Coldplay (uma das minhas músicas favoritas da vida), "Cornerstone", do Arctic Monkeys (que ouvia loucamente quando tinha 14/15 anos e que tive a felicíssima oportunidade de ver ao vivo aos 16), "Anjo", do Roupa Nova (que cantei em um asilo daqui de Aracaju, em uma tarde muito agradável), "Um dia, Um Adeus", de Guilherme Arantes (que me lembra de quando era viciada em um CD dele, aos 9/10 anos de idade), entre tantas outras canções... 


É um exercício bom este de relembrar nossas melodias, que revelam um pouco de nós mesmos e de nossas memórias, assim como feito no documentário simples - e muito bonito em sua singeleza - de Eduardo Coutinho. "As Canções" está escondido no catálogo da Netflix, e feliz daqueles que puderem encontrá-lo por lá. Vale a pena. Os minutos passam, os créditos sobem... e as histórias? Ah, estas ficam. 

Assim como As Canções. 

domingo, 30 de março de 2025

Inteligência Artificial não faz arte, faz cópia

março 30, 2025 0 Comments
Cena do filme "O Castelo Animado", de Hayao Miyazaki


Recentemente viralizou na internet uma trend (ou seja, tendência) que me deixou um tanto incomodada. A tendência em questão trata-se da criação de "artes" no estilo do Studio Ghibli geradas por Inteligência Artificial. Uma enxurrada de fotos dos mais variados tipo no estilo do Studio inundam a internet: são memes, fotografias de acervos pessoais, paisagens, cenas de filmes/séries, etc, tudo no estilo fofo já conhecido e consolidado. É uma tendência que copia escancaradamente o estilo dos artistas do Studio, particularmente de seu co-fundador Hayao Miyasaki, e traz consigo inúmeras problemáticas. 


É claro que não é uma moda que durará muito tempo. As coisas funcionam assim. Talvez em duas semanas nem seja mais lembrada, quiçá menos que isso. Ainda assim, creio que seja relevante comentar sobre o assunto, não por conta da trend em si, mas em decorrência do que ela representa dentro desse contexto de rápido avanço tecnológico que nós vivenciamos. 


Há alguns anos a Inteligência Artificial "artística" ascende na internet: são inúmeros desenhos feitos com o recurso, nos mais variados estilos e dos mais variados tipos. A tendência atual, de criar desenhos usando IA, não é recente, e já desponta com menos intensidade há algum tempo nas redes sociais. E o debate em torno do assunto também sempre existiu. Para contextualizar melhor, a Inteligência Artificial não é capaz de criar uma arte própria: ela se alimenta de várias artes pré-existentes, feitas por humanos, e, com base nelas, "cria" uma própria. Ou seja: não é uma arte original, por isso refiro-me a ela sempre entre aspas. É uma "arte" que copia obras e estilos desenvolvidos por seres humanos, entrando em questão aqui os Direitos Autorais desses artistas. 


Por que a sociedade não está disposta a pagar artistas reais para fazer tal trabalho, mas está disposta - como muita gente fez - a pagar uma Inteligência Artificial? Admito que muitos desenhos são bonitinhos e realmente fofos, é claro, mas é desgostoso pensar que foram criados como mera cópia barata de outros artistas, sem a dedicação humana que a arte impõe e sem a autorização expressa destes. Há muitos artistas de verdade, pessoas reais, que conseguem desenhar semelhantemente aos traços do Studio Ghibli, sem copiá-los e partir de um estilo próprio, mas a sociedade não está disposta a apoiá-los. 


Aliás, se pagassem artistas humanos para simplesmente copiarem o estilo do Studio Ghibli já seria algo errado. Pagarem uma Inteligência Artificial, então, anula o teor equivocado da questão? Obviamente, não! O lucro em cima da arte alheia só piora a questão, e essa é a maior problemática: como as empresas de IA estão lucrando em cima do trabalho de artistas. Acredito que a questão seja pior ainda porque Hayao Miyazaki (que, inclusive, está vivo e lançou filme inédito ano passado, O Menino e a Garça, vencedor do Oscar de Melhor Animação), já explicitou em anos anteriores que nunca usaria IA em seu trabalho e que a considera "um insulto à própria vida". 


O problema, para mim, não é a Inteligência Artificial em si, mas o uso que estamos fazendo dela. Ela pode (e deve!) ser nossa aliada, mas aqui estamos nós discutindo violação de direitos autorais e vendo trends do tipo despontando no universo on-line. 

O senso crítico parece se ausentar entre os seres humanos, que apenas seguem o efeito manada sem um questionamento real das problemáticas que tendências como esta implicam. Obviamente, nem todos têm consciência disso, das problemáticas envolvidas na tendência, então é crucial informar a razão de ser errado. Entretanto, muitas pessoas têm consciência acerca dos problemas envolvidos, e, ainda assim, escolhem fazer parte da trend. São nesses casos em que o senso crítico parece se ausentar, uma vez que é simplesmente ignorado. 


É claro que, como apaixonada pelos filmes do Studio e já tendo assistido a quase todos, uma parte de mim quis, curiosa, tentar fazer tal "arte" com a IA. E entendo quem queira fazer parte disso também, "brincar" com a IA. Mas pensei bem e não fiz. E não farei. Porque seria de uma hipocrisia tamanha ser admirada dos trabalhos do estúdio de animação e contribuir para a trend, uma vez que os filmes do Studio Ghibli são produzidos a partir de um intenso trabalho humano de desenho à mão e com a enorme dedicação que este tipo de trabalho exige, e, como afirmei antes, as imagens geradas pela Inteligência Artificial sequer merecem a alcunha de arte. 


Enquanto isso, os desenvolvedores dessas tecnologias lucram rios e rios de dinheiro, apoiando-se no trabalho alheio. E ninguém questiona. Muito pelo contrário! Colaboram para este lucro, para esta desumanização da arte. Muito mais útil não seria, como sugerido antes, pagar um artista de verdade? Muito mais útil não seria, se agora de repente todos descobriram o estilo do Studio Ghibli e se fascinaram por ele, assistir aos filmes?

São obras que refletem acerca de questões humanas, como a nossa relação com o meio-ambiente (desenvolvida em vários longas, mas, em especial, em Princesa Mononoke), com as guerras (também desenvolvida em vários longas, mas destaco um de meus favoritos, Túmulo dos Vagalumes), com a nossa própria história (como em Da Colina Kokuriko), com as expectativas sociais (Como o belíssimo e favorito pessoal O Conto da Princesa Kaguya), com nós mesmos (como Sussurros do Coração), e tantas outras temáticas, abordadas em tantos filmes!


Mas isso não está por detrás da tendência. É apenas seguir os outros, seguir os outros e fazer tudo o que fazem, seguir os outros, fazer tudo o que fazem e não ficar de fora. Porque ficar de fora do que está em alta na internet é o inconcebível. Há tantas tendências legais que às vezes despontam, mas há outras são realmente lamentáveis... e há quem diga que a reclamação é chatice, besteira... Mas está bem longe de ser. E o que mais lamento, dentre as tantas coisas que aqui lamentei, é a dessensibilização frente à desumanização da arte. 


Não podemos normalizar "arte de IA". Porque a trend, é claro, irá passar. Mas a Inteligência Artificial permanecerá aqui, e temos que aprender a lidar com ela, temos que compreender as questões atreladas à ela. Nem todos têm acesso a esse tipo de informação, e por isso não julgo quem segue a tendência por desconhecimento, mas é preciso que as pessoas que detêm as informações parem de contribuir para esse tipo de coisa e passem a questionar, a informar. É preciso que a Inteligência Artificial seja regulamentada. É preciso muita coisa ainda. 


Questionar é um bom começo.

terça-feira, 4 de março de 2025

O brasileiro abriu a torneira da misoginia no "Oscar 2025"

março 04, 2025 0 Comments


Depois que saiu o resultado do Oscar desse ano, vejo muitas pessoas criticando a atriz Mikey Madison e o filme "Anora", proferindo falas misóginas e tomando atitudes infantis. Em vez de comemorarem a vitória de "Ainda Estou Aqui", primeiro filme brasileiro a vencer o Oscar - muito merecidamente, aliás - preferem focar na destilação de ódio e em discursos vazios. Isso tem me incomodado bastante, porque escancara um lado do brasileiro completamente passional, preconceituoso e birrento. 


É claro que eu estava torcendo muito para que Fernanda Torres ganhasse o Oscar de Melhor Atriz. Sua atuação foi impecável, muito contida e muito fiel à memória de Eunice Paiva, então ela merecia muito esse prêmio! Também torcia muito para que "Ainda Estou Aqui" vencesse a categoria de "Melhor Filme", embora soubesse ser esta uma realidade mais distante e improvável. Tudo bem discordar da premiação, mas absolutamente nada justifica essa onda de ódio e misoginia que estão proferindo na internet. 


Entre os comentários horríveis que tive o desprazer de ler, vi falarem que a Mikey Madison só ganhou por fazer "teste do sofá", que ela era uma "puta fazendo filme de puta", que Anora não merecia ganhar por retratar a prostituição (como se, automaticamente, a temática classificasse o longa como inferior), entre outras coisas horríveis. Tecer críticas à premiação, aos filmes e às atuações é normal, é bem-vindo, é esperado. No entanto, as "críticas" que estão fazendo são completamente equivocadas, vindas de pessoas que claramente não se deram ao trabalho de assistir ao longa antes de emitirem uma opinião. Uma coisa é você criticar a maneira como a temática da prostituição é desenvolvida em Anora, outra coisa completamente diferente é você reduzir o valor do longa por retratar essa camada da sociedade que é, sim, marginalizada e alvo de um machismo escancarado. É como se, por pensarem que uma injustiça foi cometida na premiação, os brasileiros tivessem o aval da misoginia para falarem o que bem entenderem. Para xingarem a atriz, que não teve culpa do resultado, para reduzirem o filme premiado apenas por retratar uma prostituta, para serem tão mesquinhos e odiosos sem o menor pudor. 


Quando saiu o resultado, eu nunca tinha visto Anora. Assisti apenas ontem, um dia depois do Oscar, pois é um mico muito grande sair por aí emitindo opiniões baseado puramente no efeito manada. Mas, aparentemente, é mais fácil não pensar por si próprio, crucificar ideias contrárias e agir com tamanho desrespeito. Aparentemente, pensar dá trabalho, e mais fácil é odiar pelo simples gosto de odiar.

A sociedade às vezes me assusta. 


Aliás, eu gostei de Anora. Não creio que seja superior a "Ainda Estou Aqui", e sigo discordando do resultado. A atuação de Mikey Madison não me impactou mais que a de Fernanda Torres (mas foi boa, sim), e sigo acreditando que não foi justo a brasileira ter "perdido". Escrevo "perdido" entre aspas, porque temos uma tendência gigante, como seres humanos, a focar nas derrotas, nos resultados adversos, mas essas coisas não anulam os momentos bons e as vitórias. E, neste momento, acho que deveríamos focar nas vitórias. Tantos prêmios, tantos brasileiros indo aos cinemas para prestigiar uma produção brasileira, que retrata a nossa história, tanto reconhecimento nacional e internacional. Essas coisas não contam? Poxa! Só as indicações, mesmo nas categorias em que perdemos no Oscar, são vitórias. 


De qualquer forma, mesmo discordando do resultado, isso me dá liberdade para destilar ódio por aí, como uma criança mimada e birrenta? Spoiler: não, não dá. O óbvio não precisava ser dito, mas aqui estamos. E, não é porque desejava que os resultados tivessem sido 100% favoráveis a nós, brasileiros, que a atriz e o filme vencedor são ruins. Disto isso, esse texto está longe de ser uma resenha sobre "Ainda Estou Aqui" (ela já existe, e você pode lê-la clicando aqui) ou sobre "Anora" (ela ainda não existe, mas quem sabe um dia. Ou não), mas irei falar rapidamente sobre o segundo filme. 


O longa acompanha a protagonista de mesmo nome ao se envolver com Vanya, um herdeiro russo ricaço e  mimado, vivendo com ele uma intensa semana de muita ostentação e luxúria. Ambos chegam, inclusive, a casar impulsivamente em Las Vegas. No entanto, tudo dá errado quando os pais do menino descobrem sobre o casamento e enviam seus capangas para forçarem a anulação do casamento entre Anora e Vanya. A partir daí, o "conto de fadas" transforma-se completamente e Anora percebe que sua realidade, difícil, não vai mudar. Que para o mundo, ela é apenas uma prostituta e é isso que determina o seu valor (ou a ausência dele).


E é isso. Há quem goste da forma como o enredo foi desenvolvido, há quem julgue que o diretor foi fetichista em determinados momentos, há quem concorde com a vitória, há quem discorde. Ainda não formei completamente minha opinião, preciso refletir mais, porém, de qualquer modo, creio que a crítica do longa é, sim, pertinente. Não acho que tenha sido uma vitória absurda. Não são duas horas de pura "putaria", como vi dizerem por aí. Há sim, cenas de sexo (na primeira metade elas são constantes), mas a partir de seu segundo ato elas se tornam bem menos frequentes, pois o foco da narrativa muda. Há muito falso moralismo nos discursos de ódio, muitos equívocos, hipocrisias, inverdades e bastante misoginia.  À propósito, muitos comentários proferidos contra Mikey Madison e seu filme apenas provam o ponto do longa, da marginalização das profissionais do sexo e da inferiorização que sofrem socialmente.


Assim sendo, vamos assistir antes de criticar. E, para criticar, sejamos respeitosos e pertinentes. Saibamos reconhecer nossas vitórias e nossas derrotas, mesmo na discordância. Saibamos separar as coisas. Saibamos reconhecer nossos preconceitos internalizados e desenvolver senso crítico o suficiente para combatê-los e não proferi-los por aí como se estivéssemos em uma terra sem lei (não estamos). Saibamos que a internet não é espaço para despejarmos o pior de nós, e que as atitudes no espaço virtual refletem impactos no mundo real. Saibamos o básico!


O brasileiro ainda tem muito a aprender. 

terça-feira, 8 de março de 2022

Sobre o dia da mulher...

março 08, 2022 0 Comments
Créditos pela ilustração: Monica Garwood


Oi, pessoal! Hoje é 08 de março, Dia Internacional da Mulher. Uma data em que nossa nossa luta diária pela garantia de nossos direitos e por equidade deveria ser o foco (não apenas hoje, mas sempre), e que, no entanto, acaba sendo algo pouco debatido. Obrigada pelas flores, chocolates e pela gentileza (que deveria ser diária, não pontual), mas nós deveríamos sair do raso e mergulhar um pouco, não? Parabéns pra nós, guerreiras, que merecemos respeito e admiração, mas não apenas no dia de hoje. Seria bom se aqueles que fazem discursos bonitos em homenagem às mulheres e compartilham coisas inspiradoras sobre isso na internet realmente colocassem em prática aquilo que pregam em um dia de 365. Seria muito bom se aquele ser humano que vive fazendo piadinha machista e julgando outras mulheres parasse pra refletir um pouco sobre como o próprio comportamento é desrespeitoso, em vez de apenas falar os mesmos clichês de sempre. A data foi, inclusive, criada para se debater sobre os direitos das mulheres, mas sinto que o foco foi um tanto desviado. 


Não estou reclamando dos elogios e das homenagens, não. A questão não é essa. A questão é a hipocrisia que paira no ar, o incômodo de que, numa data criada para questionar nossa posição na sociedade e debater sobre o assunto, mal se fale no tema! Na minha escola, por exemplo, chamaram uns garotos da minha sala para prestar homenagem às mulheres e para distribuírem um chocolate Baton entre as meninas. Um dos meninos falou o que basicamente encontramos em qualquer imagem do Google ao se pesquisar "Feliz Dia da Mulher", e o outro falou que há uma questão histórica atrelada às mulheres que acaba nos colocando em uma posição inferior na sociedade e falou que o respeito tem que ser todos os dias, não apenas hoje (assim como o primeiro garoto). Legal a homenagem, e legal as falas dos meninos. Mas eu esperava que tivesse um pouco mais do que isso. Nem que fosse um vídeo, uma palestra, ou uma apostila falando sobre o principal objetivo da data. E também teria sido legal se tivessem chamado algumas meninas, afinal, é o nosso dia, não é? Enfim.


Eu espero que as pessoas comecem a abrir mais a mente delas e tente ir mais a fundo nas questões da mulher, coisa realmente proposta pelo 08 de março. Desigualdade salarial, altos índices de violência contra a mulher, maternidade compulsória (e, essa mesma sociedade que julga uma mulher que não quer ser mãe, julga as que são!), jornada dupla de trabalho, baixa participação feminina na política, entre tantas outras questões revoltantes! Por que poucas pessoas falam sobre isso no dia de hoje? Por que ficar restrito à homenagens e a clichês superficiais? Não falar sobre o problema apenas colabora para que ele perpetue. Em vez de palavras bonitas e discursos prontos, por que não tentar ouvir o que as mulheres têm a dizer sobre a própria luta, por que não buscar consumir conteúdos feitos por mulheres (nas artes, por exemplo), por que não abrir a mente e entender que as flores não são suficientes? A sociedade já deveria ter entendido isso. É triste que uma data criada com um propósito social de extrema relevância seja reduzida a bombons e a textos hipócritas na internet.  


Por fim, gostaria de indicar algumas músicas que gosto, feitas por mulheres, para mulheres, sobre mulheres. Temos "Rebel Girl", que apresenta uma letra inspiradora sobre empoderamento feminino  e "Violet", que fala sobre violência contra a mulher. Por fim, temos também "Descontruindo Amélia" que faz referência a uma música brasileira chamada "Ai, que saudade da Amélia", de letra machista e que coloca a mulher em uma posição submissa. Assim, a música cita várias questões e problemáticas relacionadas à realidade da mulher contemporânea. 

Feliz dia da mulher! Fica a reflexão.





domingo, 22 de novembro de 2020

Precisamos falar sobre... a luta antirracista

novembro 22, 2020 4 Comments
Créditos: ?

Em junho desse ano presenciamos muitos protestos antirracistas em decorrência da morte de George Floyd nos Estados Unidos, e a ascensão do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam, em português). Pessoas do mundo todo foram às ruas, se posicionaram em suas redes sociais, e um amplo debate foi instaurado, que permanece mesmo após 5 meses do ocorrido. 


20 de novembro é o dia da consciência negra no Brasil, e, em sua véspera, o país presencia um caso de violência policial, onde João Aberto, um homem negro de 40 anos, foi morto espancado por seguranças do supermercado Carrefour. O local vem sendo alvo de críticas (merecidas, diga-se de passagem), e palcos de protestos ao redor do Brasil inteiro. É curioso? 


Não sou negra. Nunca me pararam em alguma loja por "agir de forma suspeita", nunca me disseram que tal produto era "caro demais para mim", nunca fui negligenciada por conta da cor da minha pele. Nunca sofri racismo. Dizer que todas as vidas importam (o que é algo muito óbvio), no contexto do movimento negro, é desmerecer a luta antirracista, e o equivalente a dizer que todas as casas importam em um incêndio. Não é meu lugar de fala, mas creio que seria errado presenciar um caso absurdo desses e não me posicionar, ainda mais quando possuo um blog de livros. 


É tão curioso e extraordinário como algumas pessoas possuem uma enorme dificuldade (ou seria apenas egoísmo?) de sair da própria bolha e tentar enxergar a realidade do outro! Racismo reverso não existe. Você não sofreu preconceito porque te chamaram de "branquela". Você (e nem eu) nunca terá dificuldade de encontrar um emprego apenas por conta de sua cor de pele. As pessoas não trocarão de calçada ao te avistar indo na direção delas. 


Os exemplos que aqui cito são casos que vi pessoas negras comentando na internet. Não precisa ser negro para reconhecer a existência do racismo estrutural no país. Um absurdo o que ocorreu, e mais absurdo ainda é saber que não é o único (e muito menos o último) caso de violência policial contra pessoas negras no mundo. 


Pessoas brancas, escutem o que as pessoas negras têm a dizer! Suas lutas, seus anseios, seus desejos e sonhos, suas perspectivas, suas realidades... e compartilhem o que vocês ouviram, fortaleçam a luta. Pessoas negras têm vozes, escute-as. Parem de tentar diminuir suas lutas de resistência, e juntem-se a elas! É o que eu estou fazendo aqui, por meio do Sementes Literárias. 


Não é um blog de política, mas desde quando ler não é política? O simples ato de existir é político, e é por isso que escrevo esse texto. Seu silêncio disfarçado de neutralidade também é político. Não se engane. 


"Acima de um passado que está enraizado na dor

Eu me levanto

Eu sou um oceano negro, vasto e irrequieto,

Indo e vindo contra as marés, eu me levanto.

Deixando para trás noites de terror e medo

Eu me levanto"- Maya Angelou, ativista do movimento negro nos Estados Unidos e escritora best-seller


terça-feira, 8 de setembro de 2020

O poder da leitura na sociedade

setembro 08, 2020 0 Comments
(Texto escrito por mim em 23 de julho de 2020)

Recentemente, alguns questionamentos surgiram ao meu redor acerca da representatividade na literatura. Questionei-me sobre isso depois de terminar de ler "Conectadas", da escritora nacional Clara Alves. É um romance LGBTQIA+ bem fofinho! Me pus apensar: quantos livros LGBTQIA+ existem por aí? E quantos deles eu li? Quantos livros apresentam como protagonistas  minorias (que não são representadas de forma estereotipada)? Qual seria o papel da literatura nessa história? Esse texto nada mais é, cara leitora (o), uma reflexão minha acerca do tema. 

Primeiro, preciso deixar claro sobre o que significa essa palavra: representatividade. Nada mais é do que ter todas as pessoas, com suas peculiaridades de ser, sendo representadas. É a diversidade na mídia e em todos os cantos, sendo importante não apenas para a comunidade LGBTQIA+, mas também para as pessoas negras, mulheres (quando elas não sexualizadas, por exemplo), indígenas, mulçumanos, pessoas com deficiência, etc. Em outras palavras, são as minorias sendo representadas de forma coerente, sem estereótipo. Estereótipos estes que, quando espalhados, afetam a percepção que a própria sociedade possui acerca das pessoas, da vida, etc. Por exemplo, quem nunca se deparou com o estereótipo de que Nordeste é só seca? Ou Norte é apenas mato? Ou o de que todo gay é afeminado? Sendo que, quando um gay afeminado é representado, vemos uma perspectiva totalmente distorcida sobre ele, que geralmente é apresentado na posição de "melhor amigo gay", sendo este o seu único papel e valor na história. 

Reduzir as pessoas a estereótipos é completamente injusto e fora da realidade. Quando esses esterótipos são espalhados pela própria mídia, que afeta (e muito) a perspectiva que as pessoas têm acerca da sociedade, fica ainda mais difícil se desvencilhar deles, já que são tão naturalizados na nossa sociedade. Por serem naturalizados, são poucos aqueles que questionam os danos que esse estereótipos difundem, sendo um debate que necessita de muita escuta. Não adianta nada você dizer: "eu sou uma pessoa muito mente aberta", se você não escuta quando as minorias falam e se expressam. É, no mínimo, hipócrita. Por isso, quando alguma minoria for falar da representatividade para você, de suas próprias lutas, escute. Procure saber, é sempre primordial! 

Agora chegamos a um outro ponto: por que a representatividade é tão importante para as minorias? Bom, primeiro, posso te dar a resposta mais óbvia: "porque essa pessoa se sente representada, ué", mas vai muito além disso. Quando lemos algo, nos imaginamos naquele mundo, nos identificamos com os personagens, nos sentimos representados. Quando um LGBTQIA+, por exemplo, lê um livro com um protagonista LGBTQIA+, ele se identifica com aquilo, e isso é muito importante, pois ajuda a pessoa a se aceitar como ela é, e a ter orgulho de sua prórpria identidade. Além disso, a representatividade ajuda a naturalizar o que já é normal, mas não é vista dessa forma pela sociedade. Por exemplo, ler histórias com protagonistas negros ajuda os brancos a saírem um pouco da prórpria bolha, e conhecerem a realidade dessas pessoas. Por isso que muitos dizem (inclusive eu): ler gera empatia. A partir da leitura, nos conectamos com a história daqueles personagens, suas lutas e seus anseios. Quando esses protagonistas são minorias? Entramos em contato com parte de sua realidade, mesmo que seja uma história de ficção. Saímos de nossos casulos e olhamos para as vivências de outras pessoas. Passamos a enxergá-las. 

Não encontramos muitos livros por aí que falem da realidade da mulher negra na nossa sociedade racista e patriarcal, nem muitos que falem sobre a realidade dos refugiados no nosso mundo segregacionista e com manias de se achar a última cereja do bolo. Com mais livros abordando esses temas claramente pouco discutidos, creio que a sociedade consiga avançar mais rapidamente. 

Representatividade importa, e os livros são a nossa arma mais poderosa. Lembre-se disto.