sexta-feira, 21 de março de 2025

Resenha: "A Bolsa Amarela", de Lygia Bojunga

A BOLSA AMARELA 
Autora:
 Lygia Bojunga
Editora: Casa Lygia Bojunga
Número de páginas: 140
Nota: 4,3/5 ⭐


Oi, pessoal! Ontem terminei de ler "A Bolsa Amarela", clássico da literatura infantojuvenil brasileira, publicado originalmente em 1976 e relevante até os dias atuais. Li em menos de 24 horas, justamente por ser um livro bem curtinho, fácil de ler, leve e agradável. Lembrou-me da minha própria infância - não tão distante assim - e de como eu agia, pensava e me sentia naquela época. Também me fez recordar sobre as leituras que fazia em tais dias (sempre gostei de ler, e orgulhosamente me denominava "tracinha literária" hahaha), como as obras de Ruth Rocha, Ana Maria Machado, Monteiro Lobato, entre outros...

Assim, "A Bolsa Amarela" é uma obra que dialoga bastante com a criança que somos e fomos, estando altamente recomendado para pessoas de todas as idades! 


O livro acompanha Raquel, uma menina que possui três grandes vontades: ser gente grande, pois é constantemente silenciada pelos adultos a sua volta, ser garoto, porque acredita que assim teria mais liberdade, e tornar-se escritora, dando vazão à sua imaginação e expressando seus pensamentos e sentimentos.

Após receber uma enorme bolsa amarela, ela decide esconder suas vontades no local (porém, quanto mais a garota as reprime, mais elas crescem e pesam na bolsa). Além de suas vontades, ela também esconde os galos Afonso (fruto de uma das histórias que escreveu) e Terrível, um galo de briga, a Guarda-Chuva (sim, com artigo feminino!), um alfinete de fralda e uma série de nomes que gosta. Em meio à sua imaginação fértil, Raquel precisa lidar consigo mesma e com suas questões, além de enfrentar inúmeros desafios para ajudar seus amigos secretos. 


- Porque eu acho muito melhor ser homem do que mulher.

Ele me olhou bem sério. De repente riu:

- No duro?

- É, sim. Vocês podem um monte de coisas que a gente não pode. Olha: lá na escola, quando a gente tem que escolher um chefe pras brincadeiras, ele é sempre um garoto. Que nem chefe de família: é sempre o homem também. Se eu quero jogar uma pelada, que é o tipo do jogo que eu gosto, todo mundo faz pouco de mim e diz que é coisa pra homem; se eu quero soltar pipa, dizem logo a mesma coisa. É só a gente bobear que fica burra: todo mundo tá sempre dizendo que vocês é que têm que meter as caras no estudo, que vocês é que vão ser chefe de família, que vocês é que vão ter responsabilidade, que - puxa vida! - vocês é que vão ter tudo. Até pra resolver casamento - então eu não vejo? - a gente fica esperando vocês decidirem. A gente tá sempre esperando vocês resolverem as coisas pra gente. Você quer saber de uma coisa? Eu acho fogo ter nascido menina.




A obra aborda temáticas como a autodescoberta e o uso da imaginação, através da protagonista e dos outros personagens. O galo Afonso, por exemplo, fugiu de seu galinheiro pois seus donos diziam que ele deveria tomar conta das galinhas e tomar decisões por elas, pois essa era a tradição entre os galos da família: "Mas eu não era que nem meu avô, meu bisavô, meu tataravô, o que é que eu podia fazer? Eu sei que ia ser muito mais fácil eu continuar pensando igualzinho a eles. Mas eu não pensava, e daí?",  sonhando em encontrar um ideal e lutar por ele. Então, é de fato bastante interessante como Lygia Bojunga aborda temas cotidianos e humanos de forma lúdica e simples, refletindo sobre o mundo ao nosso redor - e o interior também.


Creio que é muito fácil identificar-se com Raquel e com seus dilemas e vivências. Quando era criança, amava "brincar de imaginar", e, como sou filha única, ficava muito tempo com minha imaginação, inventando histórias e personagens. Também amava escrever (ainda amo), tenho até hoje pastas cheias de textos antigos frutos da minha criatividade infantil e também sonhava (ainda sonho) em ser escritora. Também me indignava, em alguns momentos, com o tratamento que os adultos muitas vezes davam às crianças, como se não pudéssemos ter vontade, expressão e questões próprias. Assim como Raquel, assim como muitas crianças. Acredito, então, que a leitura foi feita por duas versões de mim mesma: a de dezoito anos, que está escrevendo esta resenha, e a minha versão infantil, que ainda mora aqui.


Às vezes a gente quer muito uma coisa e então acha que vai querer a vida toda. Mas aí o tempo passa. E o tempo é o tipo de coisa que adora mudar tudo. Um dia ele muda você e pronto: você enjoa de ser pequena e vai querer crescer.


Foi uma leitura bastante agradável, divertida e adorável! Já quero ler outras obras de Lygia Bojunga! Esta aqui, como dito anteriormente, está bastante recomendada. Um livro para aqueles que são ou foram crianças um dia, ou seja: todos nós...


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