quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Resenha: "Suzette - ou o grande amor"

dezembro 13, 2023 2 Comments
SUZETTE - OU O GRANDE AMOR
Autor:
 Fabien Toulmé
Editora: Nemo
Número de páginas: 336
Nota: 5/5 ⭐


Oi, pessoal! Hoje eu trago a resenha de "Suzette - ou o grande amor", livro que estava na minha lista desde o ano passado.  Eu tinha começado a lê-lo no começo desse ano, mas acabei não concluindo. Então agora nas férias eu reiniciei a leitura e a concluí, e foi uma experiência bastante agradável!


"Suzette - ou o grande amor" é uma história cativante sobre uma avó (Suzette) e uma neta (Noémie) que partem em uma jornada para reencontrar um antigo amor da senhora em questão. Depois de perder o marido, Suzette acaba revelando à Noémie que ela não foi feliz no casamento e que nunca conseguiu esquecer um amor da juventude: o italiano Francesco Benedetti. Noémie, então, a partir de histórias contadas pela avó e com a ajuda de seu namorado Hugo, decide procurar por Francesco na internet e descobrir onde ele poderia estar vivendo. Depois de uma longa busca, ela finalmente se depara com dois "Francescos" que poderiam ser o Franscesco de sua avó. Para "tirar a prova dos nove", a jovem convence a avó a partirem em uma viagem de carro para a Itália em busca desse antigo amor, e, meio relutante, Suzette acaba aceitando. Em meio a essa viagem, Noémie também acaba tendo que lidar com questões de seu próprio relacionamento com Hugo, que está um pouco estremecido. 




Essa é a premissa do quadrinho, que por si só já é bastante adorável e até lembra um pouco o filme "Cartas Para Julieta" hahaha! O livro é bastante delicado e recheado de diálogos fofos e reflexivos. O contraste de gerações marca presença por aqui, e é muito interessante observar as visões que Noémie e Suzette têm sobre a vida. Elas aprendem muito uma com a outra, e a visão contrastante que possuem acerca da vida não é motivo de conflitos, mas de diálogos pertinentes e engrandecedores (para ambas). Suzette, por exemplo, é de uma época em que as mulheres aprendiam a colocar as necessidades do marido e dos filhos à frente das suas, e era comum elas se anularem dentro do casamento. Além disso, ela também tem muito tabu com relação a sexo, enquanto Noémie encara o assunto com bastante naturalidade. A relação das duas, vale dizer, é muito bonita e muito bem trabalhada pelo autor <3


Suzette: Além do lado tabu, acho que a forma como a gente fazia amor na minha época era muito diferente. Na igreja nos diziam: 'Deve-se fazer amor para ter filhos'. E é claro que isso acaba condicionando a forma como percebe a coisa. Acho que, como muitas mulheres, fui submissa ao desejo do meu marido. E acho que se pode dizer que eu não era muito 'ardente'. Talvez seja justamente por isso que ele foi atrás de outras. 

Noémie: Nada disso! Também cabia a ele te tornar mais ardente. Desde sempre, existe um lado muito patriarcal na relação sexual [...]. Na real, a relação sexual, tal como costuma ser praticada, valorizando a penetração, é menos uma questão de prazer e de partilha que de dominação e de conquista da mulher pelo homem. 


É importante também dizer que o traço de Fabien Tolmé é muito bonito. As cores usadas (predominantemente o azul, o amarelo e o laranja) são muito bem trabalhadas e, em conjunto com o traço do quadrinista, passam a sensação de leveza e agradabilidade visual ao leitor. Particularmente, adoro quando os quadrinhos possuem um estilo mais cartunesco e único, porque creio que através dele o autor imprime um pouco mais de personalidade ao desenho. Além disso, ele pode explorar uma forma mais diferente de encarar o mundo ao redor, uma vez que não se limita ao realismo ou a um traço que busca alcançá-lo.  



O livro também conta com músicas que têm letras bem poéticas! Fui pesquisar pra ver se elas existiam na vida real, mas, infelizmente, não existem. Vou deixar aqui a letra de uma música apresentada no livro para vocês compreenderem o que estou falando.


Adoro o perfume dos teus cabelos negros,

ver as gotas de chuva molharem sua camisa branca.

Gostaria de poder te admirar para sempre.

Infelizmente, a vida não é uma dança.

Nossos passos, às vezes, nos afastam

sem que nossos braços possam nos reter.

Mas me ame enquanto pode,

me ame enquanto pode

antes que o amor desapareça.


Quando eu li isso eu fiquei: "Meu Deus, que coisa mais linda!".


Outro mérito do livro é a leveza com a qual ele retrata o amor, e, em destaque, o amor na terceira idade. É uma graça acompanhar a jornada de Suzette enquanto vivencia esse afeto adormecido pelo passar dos anos, pelos caminhos tortos que a vida é... E também é muito divertido acompanhar Simone, vizinha e melhor amiga de Suzette, enquanto se envolve com vários senhores em bailinhos da terceira idade e em sites de relacionamento! Adorável demais!!! 


"Suzette - ou o grande amor" é uma leitura que vale super a pena! É divertida, é leve, é reflexiva, é bonita (tanto em sua história como em seus traços)... foi uma leitura excelente, que deixou um quentinho em meu coração! Estou muito feliz de conhecer mais um quadrinista para acompanhar, e agora com certeza quero ler as outras obras de Fabien Toulmé! Super recomendo!! 💙

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Resenha: "O dia em que a minha vida mudou por causa de um chocolate comprado nas Ilhas Maldivas"

dezembro 08, 2023 0 Comments
O DIA EM QUE A MINHA VIDA MUDOU POR CAUSA DE UM CHOCOLATE COMPRADO NAS ILHAS MALDIVAS
Autora:
 Keka Reis
Ilustrador: Vin Vogel
Editora: Seguinte
Número de páginas: 184
Nota: 3,8\5 ⭐


Livro de estreia de Keka Reis, "O Dia em que a minha vida mudou por causa de um chocolate comprado nas Ilhas Maldivas" (Ufa! Título grande) acompanha Mia, uma pré-adolescente que está no sexto ano, em um atípico dia na escola. Tudo começou quando ela recebeu um bilhete de seu melhor amigo, Bereba (Paulo) com os seguintes dizeres: "Quer sentar do meu lado hoje na perua?" e dois quadradinhos com "Sim" e "Não" ao lado deles. Acompanhando o bilhete, havia ainda uma barra do chocolate Pura Magia, o favorito de Mia! O chocolate em questão é muito importante para a garota, pois foi o último presente que o pai deu a ela antes de vir a falecer por causa de um infarto, quando ela tinha apenas quatro anos. Durante os anos seguintes, Mia queria comer o chocolate Pura Magia o tempo inteiro, porque sempre que o fazia se lembrava de seu pai. No entanto, a empresa produtora do chocolate veio à falência e a menina nunca mais tinha visto e colocado um chocolate Pura Magia na boca de novo, até aquele momento. 


Com o bilhete e o chocolate em mãos, Mia entrou em pânico! Será que o Bereba gostava dela? E será que ela gostava do Bereba também? E se ele foi até a China ou até as Ilhas Maldivas para comprar o chocolate pra ela, então ele devia gostar bastante dela, não? Todos esses questionamentos atravessam a cabeça da protagonista, que relata seus sentimentos e pensamentos no livro, enquanto conta sobre esse dia diferentão e marcante em sua vida. A linguagem usada é muito simples e dinâmica, e a obra se assemelha bastante a um diário. Assim, a leitura flui facilmente e de forma rápida, sendo possível realizá-la em algumas horas ou pouquíssimos dias. Além disso, também há a presença de ilustrações fofíssimas de Vin Vogel, que também colaboram para a dinamicidade da leitura.




"O dia em que a minha vida mudou por causa de um chocolate comprado nas Ilhas Maldivas" estava na minha lista de leituras em 2018, e eu ~quase~ o comprei naquela época. Lembro-me de estar com dois livros na mão na Escariz, livraria aqui da minha cidade: "Para todos os garotos que já amei" e o que resenho hoje. Escolhi o primeiro. Tinha acabado de ver o filme e estava mega ansiosa para finalmente ler o livro, que inclusive foi o primeiro que resenhei aqui nos Sementes Literárias. Passado todo tempo, no começo desse ano, decidi finalmente comprar a obra de Keka Reis, por estar buscando algo levezinho e porque a leitura parecia agradável e fofa. Comecei a ler, mas acabei deixando de lado bem no comecinho. Agora nas férias, então, peguei ele pra ler pra valer! Comecei ontem à tarde e terminei hoje pela tarde também. E realmente: foi uma leitura levezinha, agradável e fofa!


Creio que esta seja uma ótima opção para quem está na mesma faixa-etária da Mia, e também para quem esteja buscando algo com gostinho de infância. A leitura até me fez relembrar um pouco de quando eu tinha a idade da Mia (ok, não foi muito tempo atrás). Eu acho muito engraçado como a Mia enxerga os alunos mais velhos, "os adolescentes originais de fábrica", como ela chegou a chamá-los, pois eu os enxergava de forma semelhante. Grandões, intimidadores. E hoje em dia eu sou uma "adolescente original de fábrica" e não vejo nada demais em mim ou nas pessoas ao meu redor hahaha Eu com certeza não me considero grandona e, muito menos, intimidadora. Acho que aos 17 anos sou meio grande, mas às vezes acho que sou meio pequena também, os dois ao mesmo tempo. Enfim, divaguei aqui hahaha 


Como costuma acontecer com os livros da Seguinte, este aqui é acompanhado por um marcador


Por fim, digo que recomendo este livro de título gigante! É uma leitura divertida e adorável <3 Ah, curiosidade: o livro foi finalista do Prêmio Jabuti na categoria Infantil e Juvenil. Já quero ler o segundo (que, claro, também conta com um enorme título): "O dia em que a minha vida mudou por causa de um pneu furado em Santa Rita de Quatro"! :)


Se você olhar de novo, alguma coisa boa sempre aparece. É uma questão de ponto de vista

 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Resenha: "Peanuts completo: 1953 a 1954"

dezembro 06, 2023 0 Comments
PEANUTS COMPLETO: 1953-1954
Autor:
 Charles M. Schulz
Editora: L&PM
Número de páginas: 314
Nota: 5/5 ⭐


Oi, pessoal! Hoje trago a resenha de mas um livro da coleção "Peanuts: completo"! Já tenho outros dois resenhados por aqui, "Peanuts Completo: 1950-1952" e "Peanuts Completo: 1955-1956" (este aqui eu li em 2019, mas eu pretendo reler em breve). Resumidamente, a coleção busca reunir todas as tiras já publicadas de Peanuts, e ainda há lançamentos pendentes (afinal, são mais de 17.000 tirinhas e são 50 anos de publicação diária e dominical!). Originalmente, a coleção foi lançada em capa dura, mas a editora responsável pela publicação dos volumes, a L&PM, está relançando-os em brochura. Eu achei isso ótimo, pois torna os livros mais acessíveis. Enfim! O volume que irei resenhar hoje é "Peanuts Completo: 1953-1954", o segundo da coleção. 


Dando continuidade ao volume anterior, aqui podemos ler mais tirinhas de Peanuts. Já percebemos mudanças nos traços de Charles M. Schulz e até a adição de alguns personagens, como Chiqueirinho e Charlotte Braun (que teve pouquíssimas aparições nas tiras).É aqui neste volume, inclusive, que Linus ganha seu maior companheiro, ainda bebê: o querido cobertor que carrega sempre por aí. Além disso, o humor segue sutil, irônico e adorável, típico de Peanuts! O livro também conta com uma introdução escrita por Walter Cronkite, e, ao final, com uma minibiografia do autor escrita por Gary Groth (sendo esta bem mais resumida do que a presente no primeiro volume da coleção, mas também muito bem escrita e interessante). 



Recomendo demais! As tirinhas de Peanuts são encantadoras e inteligentes, e certamente merecem ser conferidas. Foi uma ótima leitura! Sempre válido e agradável revisitar o bom e velho Charlie Brown 💛🖤 


ALGUMAS TIRINHAS FAVORITAS 










sábado, 25 de novembro de 2023

Dica de filme: "Verão de 85"

novembro 25, 2023 0 Comments

VERÃO DE 85 (ÉTE 85)
Diretor:
 François Ozon
Elenco principal: Benjamin Voisin, Félix Lefebvre, Philippine Velge, Valeria Bruni Tedeschi, Melvil Poupaud, Isabelle Nanty, Bruno Lochet
Classificação indicativa: 14 anos
Ano: 2020
Onde assistir: Telecine * Apple TV
Nota: 4,8/5 ⭐

Oi, pessoal! Hoje irei indicar um filme que assisti recentemente no Telecine, "Verão de 85" (coincidentemente, foi o 85° filme que vi este ano, de acordo com as minhas anotações). O longa superou as minhas expectativas, tem uma história interessante, uma bela fotografia e uma trilha sonora bem agradável também. 


"Verão de 85" acompanha uma breve história de amor que ocorreu na Normandia, litoral da França, durante o verão de 1985. A história se desenrola entre flashbacks ensolarados e um presente de tons frios e melancólicos, ficando claro que há algo de errado no ar. 

Logo no início, somos apresentados a Alexis (Félix Lefebvre), protagonista e narrador da história. Ele está dirigindo um barquinho, mas, após uma tempestade, o barco acaba virando. Desesperado e sem saber como agir, Alexis é socorrido por David (Benjamin Voisin), e os dois se tornam amigos instantaneamente. Entretanto, Alexis logo anuncia em sua narração que David está morto no presente, e então ficamos nos questionando o porquê dessa tragédia. No momento atual, o filme mostra que Alexis está sendo julgado por causa de um crime relacionado à morte de David, situação que é esclarecida à medida que o longa avança. Os telespectadores, então, embarcam nessa relação de amor que culmina em um triste fim, se perguntando o que poderia ter acontecido.



Depois de ser resgatado por David, Alexis e ele passam a sair juntos. Assim, a relação de amizade logo se transforma em um romance. Inclusive, Alexis até passa a trabalhar na loja de artigos marítimos da mãe de David. Em determinado momento, também vale dizer, David propõe um pacto a Alexis: se um deles morresse, o outro deveria dançar sobre o túmulo do que se foi. A contragosto, Alexis acaba aceitando a proposta, e, após a morte de David, está determinado a cumprir com sua palavra. 


No presente, Alexis precisa lidar ao mesmo tempo com o luto e com o acontecimento que culminou em seu julgamento. Dessa forma, o rapaz possui uma enorme dificuldade de falar sobre o ocorrido, se negando a fazê-lo quando a assistente social pede que narre os acometimentos para que ela possa ajudá-lo. Então, Alexis conta com a ajuda de seu professor de literatura, que propõe a ele que escreva sobre o assunto para conseguir lidar melhor com seus sentimentos e para conseguir contar a história à assistente social. 


Além disso, algo que certamente merece destaque e que eu gostei muito é a bela maneira como "Verão de 85" nos mostra os momentos de Alexis e David: a simplicidade e naturalidade nos gestos e nos olhares e a beleza da intimidade através de planos fechados. A fotografia e a caracterização oitentista das personagens estão fantásticas, e realmente chamaram a minha atenção!  




É interessante observar o relacionamento de Alexis e David e a diferença com que cada um enxerga a relação na qual estão envolvidos. Alexis se apaixona intensamente pelo amigo, enquanto David encara o relacionamento como uma efêmera diversão, e é claro que essa diferença de perspectivas resulta em mágoas. Essa diferença de expectativas. Outra questão levantada pelo longa é sobre o quão bem conheciam um ao outro e sobre o quanto Alexis era apaixonado por uma idealização de David, através de um diálogo que Alexis teve com sua amiga Kate (Philippine Velge). Quantos de nós não inventamos nossos amores, projetamos nossas visões sobre o outro? 


Créditos: @cinemalgbt via Instagram


"Verão de 85" é uma excelente e reflexiva pedida, que retrata a singeleza da sexualidade, dos amores e da juventude de forma instigante e belíssima. Está mais do que recomendado! 


sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Resenha: "Eu nasci pra isso"

novembro 24, 2023 0 Comments
EU NASCI PRA ISSO
Autora:
 Alice Oseman
Editora: Seguinte
Número de páginas: 368
Nota: 4/5 ⭐


Oi, pessoal! Hoje trago a resenha de "Eu nasci pra isso", de Alice Oseman (mesma autora de Heartstopper)! Li em 1 semana (terminei ontem) e foi uma experiência agradável :)


O livro acompanha Angel Rahimi e Jimmy Kaga-Ricci, sendo narrado em primeira pessoa e alternando entre o ponto de vista dos dois. Angel é super fã do Ark, banda de rock que está dominando o mundo, e a acompanha desde que o Ark tinha começado a postar vídeos tocando no YouTube, quando os membros tinham acabado de entrar na adolescência. Assim, Angel viaja a Londres para assistir ao show da banda e passar a semana na cidade, ficando hospedada na casa da avó de sua amiga virtual, Juliet, que conhece graças ao interesse em comum pelo Ark. Angel fica super animada para passar a semana se dedicando ao Ark ao lado de Juliet, além de ficar feliz porque estava finalmente conhecendo a amiga com quem falava há anos na internet. No entanto, seus planos são frustrados quando ela descobre que Juliet chamou Mac para passar a semana com elas também. Mac é um amigo virtual de Juliet, e também estava indo ao show do Ark. 


Em vários momentos me identifiquei com Angel e sua paixão pelo Ark, pois sou super fã do Arctic Monkeys e do Coldplay e adoro acompanhá-los! Entretanto, devo admitir que em certas passagens da narrativa eu achei a personagem um tanto chatinha e implicante, mas dá pra relevar. Algo perceptível em Angel é a forma como ela usa a banda para se distrair de seus problemas pessoais. Ela se agarra a essa paixão com todas as suas forças pois é por causa da banda que Angel acredita que ainda há algo de bom no mundo. Para ela, o Ark é perfeito, e a vida de seus integrantes é perfeita. Então, enquanto tudo estiver bem com o Ark, tudo ficará bem com ela. Eu creio que muitas pessoas podem acabar se identificando com Angel nesse aspecto também, pois nossas paixões realmente nos ajudam a atravessar a vida, mas precisamos entender que ela não se resume a nossas paixões, e essa é uma das lições da obra. 



Do outro lado da moeda temos Jimmy Kaga-Ricci, um dos membros da famosa boyband, junto de seus amigos Lister Bird e Rowan Omondi. Através de seu ponto de vista, conhecemos a loucura dos bastidores da vida pessoal da banda e o cotidiano frenético que levam. Além disso, Jimmy sofre seriamente de ansiedade, e toda a fama e a vida corrida apenas pioram o quadro. Para ser sincera, gostei mais de acompanhar o ponto de vista de Jimmy porque me permitiu refletir melhor sobre a vida que os famosos levam, e nem sempre eles passam por situações agradáveis em decorrência da fama: a falta de privacidade, o assédio constante, a saudade de casa, a vida desassossegada e de aparências... Essa questão faz Jimmy refletir sobre a própria carreira e sobre os caminhos que a banda está levando. Afinal, o Ark é um verdadeiro sonho para ele, mas a fama está custando a sua saúde mental, a sua felicidade. É muito interessante ver que para os fãs tudo parece perfeito, mas a realidade muitas vezes é  completamente diferente. Além de Jimmy, Lister e Rowan também precisavam lidar com seus problemas pessoais, como o fato de que Lister é alcóolatra e Rowan está em um relacionamento fadado ao fim. 


- Todo mundo é normal, não acham? - Bliss comenta. - Tipo, todo mundo é normal, todo mundo é esquisito, todo mundo só está tentando tocar a própria vida, manter a calma, seguir em frente. E se agarrar a qualquer coisa que lhes permita continuar.

- É - digo.

- É por isso que as pessoas entram em fandoms, formam bandas e tal. Só querem se agarrar ao que faz com que se sintam bem. Mesmo que seja tudo uma grande mentira. 

 

Gostei muito de ver como Alice Oseman contrasta a visão de Jimmy com a visão de Angel, pois nos permite ver o lado do famoso e o lado do fã. Mas eles não se resumem a isso: os dois tem as suas questões, as suas personalidades. Em determinado momento, os caminhos de ambos se cruzam, porém eu não irei dizer como, obviamente. Ah, e quando eu comprei o livro eu pensei que seria um romance, mas não é nada disso (isso não me decepcionou, é claro). Enfim! Outra coisa que gostei muito foi a forte representatividade presente na história. Angel, por exemplo, é mulçumana e Jimmy é um homem trans (inclusive, acho que esse é o primeiro livro que leio protagonizado por uma pessoa trans). Todavia, essas coisas são apenas detalhes de quem eles são, uma pequena parte de um enorme universo. Não é tudo. Alice Oseman retrata seus personagens de forma muito natural, como de fato é. Angel não se limita a ser mulçumana e Jimmy não se limita a ser trans, eles são muito mais do que uma parte de suas características. "Eu nasci pra isso" também faz várias referências bacanas, como ao Radiohead e ao The Killers, entre outras. O livro foi escrito em 2018 (embora tenha sido lançado no Brasil somente esse ano), mas poderia facilmente ter sido escrito em 2023 mesmo. 


O livro vem com um marcador de páginas e eu também ganhei um pôster bem bonito (porque comprei a versão com brinde), que possui o desenho da capa. Já pendurei inclusive! Olha aqui 👇🏼



Enfim, recomendo! Foi uma leitura bem interessante e agradável ;)


terça-feira, 14 de novembro de 2023

Resenha: "O Amor Natural"

novembro 14, 2023 0 Comments
O AMOR NATURAL
Autor:
 Carlos Drummond de Andrade
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 112
Nota: 3,3/5⭐


Oi, pessoal! Hoje trago a resenha do livro "O Amor Natural", de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1992, 5 anos após a sua morte. Já conhecia alguns poemas dele, e inclusive a escola ensinou (bem superficialmente, claro) um pouco sobre ele, quando estudamos os Modernistas da geração de 30. Entretanto, nunca havia lido uma obra sua, e "O Amor Natural" foi a primeira delas. É claro que, não sendo uma grande conhecedora da obra de Drummond e das características do autor, receio que a minha resenha acabe sendo um tanto superficial. Talvez no futuro faça uma releitura. Enfim.

O autor reuniu as suas poesias eróticas neste livro, e pediu para que ele fosse publicado somente após a sua morte a fim de evitar escândalos e polêmicas. Assim, "O Amor Natural" foi publicado postumamente por seus descendentes. A edição que li conta ainda, com um posfácio escrito por Mariana Quadros, refletindo sobre "O Amor Natural": os poemas contidos nele, a visão de Drummond acerca da obra e a face revelada do autor nesse livro. Tem também uma pequena cronologia da vida do autor no final do livro, juntamente com fotos suas. 

 

Os poemas aqui reunidos, como já apontado, são eróticos, sutis. Entretanto, eu diria que alguns são até pornográficos, explícitos, escancarados. Fiquei bastante chocada!! Talvez choque até mesmo aqueles que estão acostumados com as poesias de Drummond. Isso não significa, obviamente, que os poemas não possuem qualidade ou que eu não tenha gostado. Eu gostei de uns, não gostei de outros, alguns eu nem gostei nem desgostei e outros eu nem compreendi plenamente.


Foi uma leitura interessante e instigante, mas classificaria minha experiência como mediana e não acho que tenha sido uma leitura marcante. De qualquer forma, acho que valeu a pena pois pude conhecer alguns poemas que gostei bastante, tais como, "Sob o Chuveiro Amar", "Em Teu Crespo Jardim, Anêmonas Castanhas", "No Pequeno Museu Sentimental" e "Era Bom Alisar Seu Traseiro Marmóreo". Outra poesia favorita é "O Chão É Cama", que já conhecia há um tempinho pois tinha visto uma postagem na internet que falava sobre "O Amor Natural" e transcrevia esse poema. 

Por fim, recomendo a obra para quem quer conhecer uma faceta Carlos Drummond de Andrade pouco comentada ou para quem está em busca desse tipo de leitura! ;)


🌸 TRECHOS FAVORITOS 🌸


"O chão é cama para o amor urgente" - O Chão é Cama


"Vou beijando a memória desses beijos." - No Pequeno Museu Sentimental


"Você meu mundo meu relógio de não marcar horas; de esquecê-las. Você meu andar meu ar meu comer meu descomer. Minha paz de espadas acesas" - Você Meu Mundo Meu Relógio de Não Marcar Horas


"Só a bunda existia, o resto era miragem" - Era Bom Alisar Seu Traseiro Marmóreo 


"Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas

detêm a mão ansiosa: Devagar.

Cada pétala ou sépala seja lentamente

acariciada, céu; e a vista pouse,

beijo abstrato, antes do beijo ritual,

na flora pubescente, amor; e tudo é sagrado." - Poema completo "Em Teu Crespo Jardim, Anêmonas Castanhas"

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Solidão e amor em tempos de inteligência artificial ("Ela")

outubro 11, 2023 0 Comments
ELA
Diretor:
 Spike Jonze
Elenco Principal: Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Amy Adams Rooney Mara 
Ano de lançamento: 2013
Onde assistir: Netflix
Nota: 4,5/5 ⭐


Oi, pessoal! Hoje assisti ao filme "Ela", de Spike Jonze, que estava há anos na minha lista. Bom, ontem à noite finalmente dei o play nele e hoje pela manhã terminei de assisti-lo (faltei à escola porque estou doente. Maldita gripe). O filme é, sem sombra de dúvidas, um romance bastante peculiar. 


O longa se passa em um futuro não-tão-distante-assim e acompanha o solitário Theodore Twombly, interpretado brilhantemente por Joaquin Phoenix, cujo casamento terminou recentemente. Além disso, ele trabalha escrevendo cartas para diversas pessoas: namorados, familiares, amigos, etc, e é bastante reconhecido por seu trabalho. Logo no começo do filme, Theodore decide comprar e instalar um Sistema Operacional em seu computador, Samantha, que recebe a voz de Scarlett Johansson. Os dois desenvolvem uma amizade e, com o passar do tempo, desenvolvem também um romance, o que levanta uma série de questionamentos. Os sentimentos de Samantha são genuínos ou seu amor é apenas uma resposta aos sentimentos de Theodore, pois foi programada para mimetizar os sentimentos humanos? 


No começo do filme eu pensei: "caramba, Theodore está tão carente que se apaixonou por uma inteligência artificial", mas, enquanto os minutos passavam, fui, surpreendentemente, sendo cativada pelo peculiar casal. Samantha é tão verossímil que chega a ser assustador. E fica claro que o que Theodore sente não se resume à carência: ele realmente se encanta e se apaixona por Samantha. Os sentimentos dela, por sua vez, também não parecem irreais, muito pelo contrário. "Ela" no entanto, não se preocupa em responder se os sentimentos de Samantha são verdadeiros ou não. Talvez não precise, justamente para gerar reflexão a quem assiste. De qualquer forma, é espantoso o quanto o sistema operacional transborda genuinidade, chegando a parecer realmente um ser humano. Porém, é preciso lembrar: o sistema operacional não é humano, por mais que pareça com um. 



Aliás, algo importante a ser mencionado, é o quanto o futuro do longa não chega a ser distópico, pelo menos na minha opinião. O mundo não está se acabando, a tecnologia não destruiu a humanidade. Na verdade, o futuro de "Ela" parece bastante com os dias atuais. O tempo inteiro as pessoas estão falando sozinhas com seus computadores, imersas em meio à tecnologia, alheias àquilo ao redor. Parece o presente, não? Quantos de nós nos perdemos nas telas de nossos celulares por horas e nos esquecemos da vida real? Ademais, no futuro do filme, as pessoas se tornam amigas (e até namoradas, como o caso de Theodore) da inteligência artificial. Isso também não me parece muito distante, mas não deixa de ser assustador. A solidão se torna tão presente na sociedade que recorrer a relacionamentos com os computadores acaba se tornando uma prática comum, como uma tentativa de preencher o vazio que carregam no peito. As pessoas estão tão conectadas à tecnologia que o contato humano, real, é reduzido. Acho no mínimo triste, porém não impossível de acontecer. 


Acho que estamos todos em busca de amor, de compreensão, de reciprocidade. Em "Ela", todavia, é possível preencher esse vazio com uma inteligência artificial super avançada. Mas isso não real. A inteligência artificial foi programada para servir e imitar os seres humanos. Ela não é humana. Samantha desenvolve uma consciência própria, mas quanto daquilo ali é realmente Samantha e quanto daquilo é apenas programação? Como eu disse no começo desse texto, eu fui cativada pelo romance de Theodore e Samantha, porque Samantha parece real e é realmente encantadora e tudo em torno deles parece real. Mas não é. Theodore queria ser compreendido e amado, e uma inteligência artificial foi capaz de lhe dar isso, sem os desafios e complexidades de um relacionamento verdadeiro, pois o objetivo da IA é servi-lo, agradá-lo. O sistema operacional se molda para atender as necessidades de quem o usa, e Theodore necessitava de amor. No fim, Theodore amou e sentiu-se amado. 


Em determinado momento do filme, Samantha e Theodore estão passeando, e o seguinte diálogo se desenrola (eu, particularmente, adorei ele):


Théo: O que você está fazendo?

Samantha: Estou só observando o mundo... e compondo uma nova peça de piano.

Théo: Ah, é? Posso ouvi-la? 

Samantha: Hum-rum. 

A música começa a tocar.

Theo: Essa é sobre o quê?

Samantha: Estava pensando... Como nós não temos fotos da gente, achei que essa música poderia ser como uma fotografia que registre este momento de nossa vida juntos. 

Theo: Gostei da nossa fotografia. Consigo te ver nela. 

Samantha: Eu estou. 


Eis a música, que é simplesmente belíssima:


O filme também conta com outra música muito marcante, The Moon Song, que eu já conhecia antes mesmo de assisti-lo.


Outra passagem que gostei muito é quando Theodore decide escrever uma carta para sua ex-esposa (Rooney Mara):


Querida Catherine, 

Estou aqui pensando em tudo pelo qual eu gostaria de me desculpar. Por toda a dor que causamos um ao outro. Toda a culpa que eu te atribuí. Por tudo que eu precisava que você fosse ou que você dissesse. Sinto muito por isso. Sempre vou te amar, porque nós amadurecemos juntos, e você me ajudou a fazer de mim quem eu sou. Eu só queria que você soubesse que sempre haverá uma parte sua em mim e que sou grato por isso. Quem quer que você venha a se tornar e onde quer que você esteja no mundo, estarei te mandando amor. Você será sempre minha amiga. 

Com amor,

Theodore


"Ela" é um longa-metragem que levanta diversos questionamentos, como apontei, valendo bastante a pena. É melancólico, sensível, tem um bela trilha sonora e a fotografia é simplesmente impecável! Recomendo fortemente ❤


Na minha humilde opinião, Joaquin Phoenix está uma gracinha neste filme. Este é apenas mais um motivo para assisti-lo (eu acho uma razão super válida, aliás).