domingo, 6 de julho de 2025

Resenha: "Poemas de Alberto Caeiro"

julho 06, 2025 0 Comments
POEMAS DE ALBERTO CAEIRO
Autor:
 Fernando Pessoa
Editora: L&PM
Número de páginas: 144
Nota: 5/5 ⭐❤


Oi, pessoal! Dia três desse mês concluí a leitura de "Poemas de Alberto Caeiro", publicado em edição de bolso pela editora L&PM e que reúne poesias de um dos mais famosos heterônimos de Fernando Pessoa. Caeiro é considerado o mestre dos heterônimos e do próprio Pessoa, sendo também o "poeta da Natureza", constantemente exaltada em seus versos (que muito me encantam e que me encantaram, mais uma vez!). Peguei emprestado da minha mãe, que possui uma coleção de livros do autor - para a minha felicidade. 


Esta edição está bastante organizada, possuindo dois textos de apresentação: um sobre Fernando Pessoa de um modo geral, com breves apresentações sobre Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis - seus três principais heterônimos - e o outro sobre, especificamente, Caeiro. Além disso, as poesias são acompanhadas de notas de rodapé que ampliam a visão apresentada nos versos. Tais detalhes tornam a leitura ainda mais rica e permite que conheçamos melhor a obra do autor - ortônimo e heterônimo -, nos fazendo compreender melhor seus poemas. Ao final, há, ainda, uma cronologia que relata, brevemente, eventos marcantes de sua vida. Por fim, a edição também é dividida em três partes: "O Guardador de Rebanhos", "O Pastor Amoroso" e "Poemas Inconjuntos". 




Em "O Guardador de Rebanhos", temos a oportunidade de ler poemas que Fernando Pessoa escreveu, sob a identidade de Alberto Caeiro, em 8 de março de 1914, o "dia triunfal" em que ele criou seus três grandes heterônimos. Nesses poemas, o mestre da Natureza reflete sobre o mundo natural que o cerca e aquele que carrega dentro de si, negando o ato de pensar e valorizando as sensações e aquilo que se pode ver e ouvir (como ele mesmo diz: "E os meus pensamentos são todos sensações"). São poesias sensíveis e belas, algumas que já conhecia e já amava, e outras que passei a conhecer e a amar. É o caso, por exemplo, do poema II, que possui um verso que nunca esqueço e que carrego em meu coração: "Sinto-me nascido a cada momento/Para a eterna novidade do mundo". Tenho até uma ecobag com esta frase estampada, que comprei em minha visita à Casa de Fernando Pessoa em minha viagem à Lisboa no ano passado! O meu poema favorito desta primeira parte (e talvez do livro todo), entretanto, foi um que nunca antes havia lido, o poema VIII. Nele, Alberto Caeiro reflete sobre o Menino Jesus, que vive com Caeiro em sua aldeia. Há uma terna descrição da infância de Jesus como criança, ao mesmo tempo em que se humaniza a figura divina de Cristo de uma forma muito linda e poética. 


Ele dorme dentro da minha alma

E às vezes acorda de noite

E brinca com meus sonhos. 

Vira uns de perna para o ar,

Põe uns em cima dos outros

E bate as palmas sozinho

Sorrindo para o meu sono. 

-----------------------------

Quando eu morrer, filhinho, 

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo 

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer. 

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.


Na segunda parte da obra, "O Pastor Amoroso", temos a oportunidade de ler as poesias românticas de Alberto Caeiro, que, apaixonado, transforma suas convicções. Se antes ele recusava o ato de pensar, agora pensa sobre a pessoa amada, embora não seja correspondido. É a parte mais breve do livro, mas não menos interessante. Aqui, embora dedique suas poesias a quem ama, o autor continua a valorizar a natureza e a conectar-se com ela.


Tem o cabelo de um louro amarelo de trigo ao sol claro,

E a boca quando fala diz coisas que não só as palavras

Sorri, e os dentes são limpos como as pedras do rio.


Na terceira e última parte, "Poemas Inconjuntos", Caeiro retorna àquele que era antes das vivências contidas em "O Pastor Amoroso". Os poemas continuam sensíveis, exaltando o natural, aquilo que realmente é e as sensações. Muitos dos meus poemas favoritos estão aqui, como "Quando vier a primavera", que considero tão bonito que decorei na íntegra. Ademais, pude conhecer mais poesias que gostei bastante, como "Na noite de S. João para além do muro" e outras!


Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,

Não há nada mais simples. 

Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.

Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.



Por tudo que disse aqui, recomendo bastante a leitura deste livro! É sempre uma boa experiência ler Fernando Pessoa, e poder conhecer melhor as poesias de Alberto Caeiro também o foi. Se tiver interesse, pode ler também as resenhas de "Fernando Pessoa: Poesias", pequena antologia poética que me introduziu à sua obra, de "Poetas de Lisboa", que reúne poesias suas e de outros grandes poetas portugueses, e, por fim, a postagem que fiz relatando minha visita à sua casa (esta aqui!). Até a próxima, pessoal ;)


Quem me dera que eu fosse o pó da estrada 

E que os pés dos pobres estivessem me pisando...


Quem me dera que eu fosse os rios que correm

E que as lavadeiras estivessem à minha beira...


Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio

E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...


Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro

E que ele me batesse e me estimasse...


Antes isso que ser o que atravessa a vida

Olhando para trás de si e sentindo pena...

 

domingo, 29 de junho de 2025

Alguma canção já marcou a sua vida?

junho 29, 2025 0 Comments

AS CANÇÕES
Diretor:
 Eduardo Coutinho
Ano: 2011
Nota: 4,7/5 ⭐
Onde assistir: Netflix


"Documentário" nunca foi um gênero cinematográfico sobre o qual me debruçasse com frequência, embora vez ou outra algum chamasse a minha atenção e eu demonstrasse curiosidade sobre esse tipo de filme ou série. Entretanto, recentemente estou assistindo mais documentários do que o meu habitual, um atrás do outro - e querendo ver mais! Um dos responsáveis por isso é o diretor brasileiro Eduardo Coutinho. O primeiro filme que vi dele foi o maravilhoso "Jogo de Cena". O segundo e igualmente maravilhoso foi "Edifício Master". E o terceiro é aquele sobre o qual falo nesse texto: "As Canções", lançado em 2011. Mas não irei parar nele, pois em minha lista ainda há outras obras do diretor que pretendo visitar. 


Com relação aos três longas vistos por mim (até o presente momento), todos compartilham o fato de retratarem histórias de pessoas comuns, dessas histórias que cativam e atraem o nosso olhar pela sinceridade com que são narradas e pela vida que transbordam da tela. Poderiam, facilmente, ser de rostos que banalmente cruzamos nas ruas. Poderiam ser nossas também. E tudo é gravado de modo simples, talvez influenciado pela visão de que as histórias são maiores do que os filmes em si. E isso basta. 


"As Canções" retrata tais histórias através da relação das pessoas com músicas que marcaram as vidas delas. Nesse aspecto, me lembrei bastante de meus avós, pois muitas das canções cantadas (sim, cantadas!) pelas pessoas que relatam suas vivências são músicas que eles gostam e também cantam, como "Esmeralda". Assim, conhecemos um pouco daqueles indivíduos, que se revelam para as câmeras por meio da própria narrativa e das emoções que evocam com suas canções. Saudosamente, há quem chore, há quem sorria, e o telespectador sente um pouquinho também, do outro lado da tela. São histórias de amor (em sua maioria, românticas): há a mulher que nunca esqueceu um grande amor da juventude, o filho que escreveu uma belíssima canções em memória da relação com o falecido pai, o homem que reatou um relacionamento influenciado por uma música de Jorge Ben Jor, a mulher que lida com o divórcio de um importante amor, etc. Ouvir tais histórias é um ato de empatia, é ver beleza no aparentemente banal que a vida é, é mergulhar em 91 minutos de filme e nem sentir o tempo passar. 


Além de tudo isso, "As Canções" acaba por, talvez sem querer querendo, deixar reflexivo o telespectador acerca da própria vida, das pessoas ao redor e das músicas que carregamos no peito. É como se, indiretamente, fosse feita a quem assiste ao longa a mesma pergunta que fizeram na produção do documentário, buscando pessoas para participar do filme: "Alguma música já marcou a sua vida? Cante e conte a sua história". E isso nos deixa pensativos, também, sobre o poder da música em nossa vida, em nosso cotidiano. 


Engraçado que sei exatamente sobre qual música eu falaria se fosse participar do documentário: "Amor I Love You", da Marisa Monte. Não é minha música favorita dela, mas comecei a ouvir Marisa Monte por causa dessa canção, além de ter marcado muito a minha vida e ser, com certeza, a música que mais cantei. Ela me lembra da minha mãe (da minha família, como um todo), mas, especialmente, ela me lembra de mim mesma. Nunca esqueço a letra, por mais tempo que passe sem escutá-la. "Pássaro de Fogo", de Paula Fernandes, por sua vez, me lembra da minha infância e de meu avô, que sempre pedia que eu cantasse as duas músicas que citei pra ele... 


Outras canções também poderiam fazer parte da minha lista de músicas marcantes, como "Trouble", do Coldplay (uma das minhas músicas favoritas da vida), "Cornerstone", do Arctic Monkeys (que ouvia loucamente quando tinha 14/15 anos e que tive a felicíssima oportunidade de ver ao vivo aos 16), "Anjo", do Roupa Nova (que cantei em um asilo daqui de Aracaju, em uma tarde muito agradável), "Um dia, Um Adeus", de Guilherme Arantes (que me lembra de quando era viciada em um CD dele, aos 9/10 anos de idade), entre tantas outras canções... 


É um exercício bom este de relembrar nossas melodias, que revelam um pouco de nós mesmos e de nossas memórias, assim como feito no documentário simples - e muito bonito em sua singeleza - de Eduardo Coutinho. "As Canções" está escondido no catálogo da Netflix, e feliz daqueles que puderem encontrá-lo por lá. Vale a pena. Os minutos passam, os créditos sobem... e as histórias? Ah, estas ficam. 

Assim como As Canções. 

Resenha: "O Auto da Compadecida"

junho 29, 2025 2 Comments
O AUTO DA COMPADECIDA
Autor:
 Ariano Suassuna
Editora: Nova Fronteira
Número de páginas: 207
Nota: 3,7/5 ⭐


Oi, pessoal! Hoje trago a resenha da obra "O Auto da Compadecida", peça escrita por Ariano Suassuna em 1955 e encenada pela primeira vez em 1957, tendo sido adaptada para o cinema três vezes (a adaptação mais famosa - e também a única que assisti - é a de 1999, do diretor Guel Arraes e contando com Selton Mello e Matheus Nachtergaele nos papeis principais). Peguei o livro emprestado na biblioteca da minha faculdade, a BICEN da UFS. Achei bem legal que lá tem várias obras literárias, para além das leituras acadêmicas e técnicas, e fiquei feliz quando encontrei "O Auto da Compadecida" por lá, pois era uma obra que pensava em ler já há algum tempo!


A peça, dividida em três atos, inicia com João Grilo e Chicó tentando convencer o padre João a benzer o cachorro do padeiro e da mulher dele, patrões da dupla. O padre inicialmente se recusa a tal ato, e, então, João Grilo inventa que o cachorro é, na verdade, do Major Antônio Moraes, coronel da cidadezinha sertaneja Taperoá. Rapidamente o padre muda de ideia e decide benzer o cachorro, que, no entanto, morre antes de receber a benção. Assim, o padeiro e a mulher decidem pedir que o animal seja enterrado com uma cerimônia em latim, o que também desagrada o padre. Entretanto, João Grilo inventa mais uma mentira, afirmando que o cachorro deixou um testamento a ser dividido entre os membros da Igreja, o que faz com que o padre e o bispo atendam ao pedido dos donos do cão. Logo depois, inesperadamente, chega Severino de Aracaju (sim, minha cidade!) e outro cangaceiro para roubarem a cidade e matar os personagens da peça. No fim das contas, quase todos morrem (com exceção de Chicó), tendo que enfrentar um Julgamento para saberem se irão para o paraíso, o inferno ou o purgatório, deparando-se com as figuras do Encouraçado - ou seja, o demônio -, de Manuel (Jesus) e da Compadecida, que irá interceder pelas almas daquelas pessoas. 



Através de uma história dinâmica, leve e divertida, Ariano Suassuna celebra o Nordeste e a sua cultura, inspirando-se em livretos de cordel para escrever a peça. Além disso, as peripécias de João Grilo, com sua esperteza e malandragens já bem conhecidas pelo público brasileiro, e as histórias mirabolantes do ingênuo e frouxo Chicó encantam e deixam a obra ainda mais engraçada. A adaptação cinematográfica, que inclusive pretendo reassistir, conseguiu capturar bem a essência da peça e expandir o universo desenvolvido por Suassuna (até li com as vozes dos atores!). 


A edição que li, da Nova Fronteira, ainda conta com um prefácio, escrito por Henrique Oscar. Por meio dele podemos entender melhor o contexto em que a peça foi escrita e as críticas sutis levantadas por Suassuna, como a corrupção do clero, a Justiça brasileira, entre outras. Há também, ao final do livro, um texto de Braulio Tavares relacionando o "Auto da Compadecida" às tradições e à memória nordestina e outro texto, dessa vez escrito por Carlos Newton Junior, narrando um pouco sobre a vida do autor. Tais escritos enriquecem e ampliam a experiência de leitura, tornando-a mais rica e nos fazendo compreendê-la melhor. Por fim, a edição ainda conta com ilustrações de Manuel Dantas Suassuna, filho de Ariano Suassuna.


Ler "O Auto da Compadecida" foi uma experiência agradável, boa e divertida, sendo a segunda peça que leio em minha vida (a primeira foi "Lisbela e o Prisioneiro", já resenhada aqui no Sementes Literárias: clique aqui para acessá-la). Recomendo para quem busca uma leitura leve, engraçada e bem dinâmica! 


domingo, 1 de junho de 2025

Resenha: "Joy" (Primeiro volume)

junho 01, 2025 0 Comments
JOY
Autora:
 Etsuko
Editora: New Pop
Número de páginas: 216
Nota: 3,6/5 ⭐


Oi, pessoal! Na sexta-feira, 30 de maio, fui a um sebo com minha mãe e compramos vários livros por lá. Trata-se do "Cantinho Sempre Viva" e foi a primeira vez que visitei o local, que me deixou encantada com a variedade de livros e com o carinho nítido com que o dono do lugar organiza, cuida de tudo e recebe as pessoas! Uma das obras que adquiri foi o mangá "Joy", que não conhecia, mas me chamou atenção pela capa, pois achei muito bonita (sim!). Li a sinopse, achei interessante e decidi adquirir! 


"Joy" acompanha Go Okasaki e seu assistente, Yusuke Akune. Ambos são mangakás (ou seja: trabalham desenhando e publicando mangás) e começam a trabalhar em uma nova história após uma proposta da editora de Go: um mangá BL (sigla para boys love, gay). Go aceita a proposta e, pensando em criar uma história melhor e mais realista, decide fingir que sente uma paixão platônica por seu assistente, que é abertamente homossexual. O que ele não esperava (mas eu sim) era que iria começar a se apaixonar por Akune de verdade, precisando lidar com seus próprios sentimentos e com a criação de seu novo mangá.  Além disso, ao final da obra, há ainda um mini capítulo extra em que podemos ver mais um pouquinho dos protagonistas.



Como é possível perceber, a premissa é bem clichê. De qualquer modo, a forma como a história é narrada é bastante leve e fofa, o que faz com que realmente torçamos pelo casal. A leitura é dinâmica e divertida, com alguns momentos dramáticos. Gostei da maneira como a relação entre os protagonistas é apresentada de forma natural, assim como a descoberta de Go de que está apaixonado por Akune e as questões pessoais de cada um (como o sentimento de solidão de Go). 


Recomendo "Joy" para quem está em busca de uma leitura agradável, rápida e fofa, e também para quem gosta de BL (foi o primeiro mangá do gênero que li, e foi uma experiência positiva). Além desse volume, existe uma continuação, Joy Second, que acompanha Go e Yusuke vivendo como casal, então penso em adquiri-lo em breve! ❤


segunda-feira, 21 de abril de 2025

Resenha: "O Diário da Princesa"

abril 21, 2025 0 Comments
O DIÁRIO DA PRINCESA
Autora:
 Meg Cabot 
Editora: Record
Número de páginas: 284
Nota: 3,3/5 ⭐


Oi, pessoal! Quase duas semanas atrás terminei de ler o primeiro livro da série "O Diário da Princesa", que peguei naquele projeto de trocas que mencionei na resenha do "Menino Maluquinho", o Aracaju Biblioteca Livre. Apesar de ter visto os filmes quando era criança, nunca tinha tido a experiência de ler a obra original, e agora tive! São 11 livros ao todo (sim, ONZE), e talvez continue com a série aos poucos - ou não, veremos. De qualquer forma, foi uma leitura gostosinha e divertida :)

Não irei comparar ao filme porque, para ser sincera, nem me lembro ao certo, de tanto tempo que vi pela última vez hahaha Então fiquemos só com o livro mesmo 😅 


"O Diário da Princesa" acompanha a adolescente de 14 anos Mia Thermopolis, que recebeu o diário da sua mãe para que ela pudesse expressar seus sentimentos reprimidos e lidar melhor com eles. A questão inicial é que sua mãe, Helen, está namorando o professor de Álgebra de Mia, justamente a matéria em que ela tem mais dificuldade e beira a reprovação. Não sabendo ao certo como lidar com isso, Mia escreve em seu diário seus anseios e seu cotidiano, falando sobre sua família, a escola, seus amigos, os meninos por quem se interessa... Para completar, pouco tempo depois de receber seu diário de presente, Mia descobre que seu pai é um príncipe e que ele não pode mais ter filhos, tornando-a a única herdeira do trono de Genóvia. Dessa forma, mesmo desanimada (afinal, Mia não queria ser princesa), ela precisa aprender a lidar com a sua nova realidade e com as mudanças impostas a ela por esse cenário. Para isso, ela passará a ter aulas com a sua avó, rainha de Genóvia, sobre como ser princesa. 



É uma premissa interessante e o livro é escrito de forma irônica, fácil e divertida. Eu gostei da leitura justamente por isso, sendo bem simples, agradável e ótimo para passar o tempo, me arrancando risadinhas em alguns momentos!

No entanto, às vezes eu não estava muito envolvida com a leitura - e creio que isso tenha mais a ver comigo do que com o livro. Na realidade, a obra não é entediante e a todo momento algo acontece na vida de Mia, além de ser engraçado acompanhar seus pensamentos. Certas horas eu pensava: "acho que eu estaria gostando mais se eu tivesse 12 anos", porque eu amava livros como esse naquela idade, mas acredito que tive essa percepção porque agora eles já não apresentam o mesmo apelo pra mim. De qualquer modo, eu gostei da leitura, mas não tanto assim. Portanto, acredito que se tivesse lido em outra época, sei que teria gostado ainda mais e me conectado mais com a história e com as personagens. 


"O Diário da Princesa" tem aquele ar de comédia romântica adolescente água com açúcar dos anos 2000 (ano em que a obra foi originalmente publicada). Além disso, é um ótimo livro para quem está na pré-adolescência/começo da adolescência, porque creio que conversa bem com essa faixa-etária e o detalhe de Mia ser uma princesa é uma adição lúdica interessante a esse universo. Assim, recomendo para quem gosta desse estilo literário e para quem (especialmente garotas) esteja em idade semelhante à de Mia!



quarta-feira, 9 de abril de 2025

Sobre a trilogia do "Antes", de Richard Linklater

abril 09, 2025 0 Comments
Créditos: Max Finkel


Recentemente assisti, em três dias, aos três filmes da trilogia do "Antes", do diretor e roteirista Richard Linklater: "Antes do Amanhecer" (1995), "Antes do Pôr-do-Sol" (2004) e "Antes da Meia-Noite" (2013). Cada um desses filmes (com um intervalo de 9 anos entre eles) apresenta a trajetória do casal Jesse e Céline de forma particular e interessante, tendo chamado bastante a minha atenção e me cativado logo de cara. Nunca havia assistido aos filmes antes, mas sempre via as pessoas falando sobre eles. Assisti e entendi o porquê. Então, por essas razões, decidi escrever um post aqui no blog para falar sobre os longas e minha visão acerca deles ❤


O primeiro filme é sobre o que poderia ter sido, o segundo sobre o que deveria ter sido. "Antes da Meia-Noite" é sobre o que é. - Ethan Hawke, em entrevista ao The Guardian

 

ANTES DO AMANHECER (1995)



O primeiro filme, "Antes do Amanhecer", nos apresenta Jesse (Ethan Hawke, que também trabalhou com Linklater no ótimo Boyhood) e Céline (Julie Delpy) desde o momento em que eles se conheceram, em um trem que partia para Viena. Lá, Jesse passaria um dia até, na manhã seguinte, retornar para seu país natal, os Estados Unidos. Já Céline não faria parada em Viena, seguindo até Paris. Entretanto, ao pararem em Viena,  Jesse propõe à moça que passe aquele dia com ele. Ela aceita e, a partir disso, o filme se desenrola em longas caminhadas por Viena, momentos recheados com diálogos afiados, reflexivos e sinceros. 


É muito bonito ver o interesse entre ambos desabrochar ali mesmo naquele trem e ir crescendo à medida que compartilham experiências e conversas. Além disso, o longa é recheado de detalhes que fazem com que tudo soe muito genuíno: os gestos, os olhares, as palavras, a respiração das personagens, os sorrisos... Tudo contribui para construir a atmosfera etérea que permeia o filme, sentimento compartilhado pelos próprios protagonistas, que dizem que tudo parece "um sonho". Tudo carrega consigo o desejo profundo de conexão, o anseio e a curiosidade pelo outro, a urgência causada pela noção de que em um dia eles tomarão rumos opostos... e há muita poesia envolvida nessas quase duas horas do filme.


Se existe algum tipo de magia nesse mundo... deve estar na tentativa de entender alguém, compartilhar algo...


É uma experiência muito bonita assistir a esse filme, e você (pelo menos eu) nem sente o tempo passar, de tão imerso que fica nos diálogos dos dois e nesse afeto que brota quase como se fosse um conto de fadas moderno - mas, que, ainda assim, soa real. 


Créditos: @umfilmemedisse, via Instagram


Ao final do longa, Jesse e Céline prometem um para outro se reencontrarem naquela mesma estação de trem em Viena depois de 6 meses, e, assim, o filme termina. Deixa, então, a pergunta no ar: eles realmente se reencontram após esse período?


ANTES DO PÔR-DO-SOL (2004)



No segundo longa da trilogia, lançado e passado 9 anos após os eventos do último filme, temos a resposta que pairou durante todo esse tempo no ar: não, eles não se reencontraram. A avó de Céline faleceu bem no dia marcado, e ela não pôde comparecer ao encontro, embora Jesse tenha ido. 
Ele, aliás, tornou-se um escritor e lançou seu primeiro livro, inspirado nos acontecimentos do longa antecessor e, consequentemente, em sua breve história com Céline. Ao viajar pela Europa em decorrência dos eventos de lançamento da obra, Jesse passará seu último dia no Velho Continente em Paris, cidade da moça. Então, sabendo do evento, Céline vai até a livraria em que Jesse está divulgando seu livro e eles podem se reencontrar, finalmente.

Assim, eles conversam sobre como a vida se sucedeu durante todos esses anos. Jesse está casado e tem um filho, além de ter se tornado escritor, Céline possui um namorado fotógrafo que está sempre viajando e trabalha em uma ONG. Ambos amadureceram e podemos perceber essa mudança em relação ao filme anterior: antes eram jovens extremamente sonhadores e tudo era muito novo, tudo tinha muito frescor. Agora, a vida passou e tiveram mais experiências, mais alegrias, frustações e arrependimentos.  A vida continuou a acontecer. E aí, quando menos esperavam, essa mesma vida ofereceu uma segunda chance para os dois. 

Eu quero pintar mais, quero tocar meu violão todos os dias, quero aprender chinês, quero compor mais canções... Tem tanta coisa que quero fazer, que acabo não fazendo muito.


Aqui, eles continuam a refletir sobre si mesmos, sua relação um com um outro e como se recordam dos eventos passados. Refletem sobre os erros que cometeram, - como a decisão de não trocarem números de telefone nem endereço em Viena - sobre as transformações que passaram... sobre, enfim, a vida.

Não se pode substituir ninguém, porque todo mundo é uma soma de pequenos e belos detalhes. 

Créditos: Cinéfilo Em Série, no Pinterest


Dessa forma, Jesse e Céline se reconectam e é bonito poder presenciar isso. Como eles não esqueceram um do outro - Jesse até escreveu um livro e Céline, uma canção (que ela toca para ele ao final do filme, em uma cena muito singela e adorável). O filme é bem curtinho, afinal, o tempo que Jesse e Céline têm é ainda menor do que no antecessor: no mesmo dia, Jesse precisa pegar o avião para retornar aos Estados Unidos. Porém, apesar de curto, é igualmente bonito e reflexivo. Honesto. Poético. E mais maduro, como suas personagens. 



ANTES DA MEIA-NOITE (2013)



Após Jesse perder o avião no longa anterior e ter escolhido ficar com Céline, podemos finalmente acompanhar os dois se relacionando de fato, como casal - uma coisa mais concreta. Mas não é no princípio do relacionamento. Na realidade, passaram-se nove anos desde o último longa, e aqui ambos possuem filhas gêmeas e estão terminando de passar as férias na Grécia. 

O filme se inicia na despedida de Jesse e o filho mais velho, que teve com sua ex-esposa, uma vez que o menino precisou voltar para os Estados Unidos. Esse é um ponto importante, pois a distância entre o filho e Jesse, além do relacionamento ruim entre a mãe dele e os protagonistas, é um aspecto que gera muitas discussões entre Céline e Jesse. Jesse quer se mudar para os Estados Unidos, Céline prefere que o menino more com ambos em Paris. No entanto, a guarda é da mãe dele e ela nunca aceitaria isso.  Para completar, Céline recebeu uma excelente proposta de emprego, e mudar-se para outro país é um fator complicado. Essas questões iniciam as discussões de ambos, que revelam, aos poucos, outros aspectos difíceis de um relacionamento já desgastado: mágoas, expectativas diferentes e expectativas frustradas, o desejo de permanecerem unidos pela consideração que possuem um pelo outro, mas não sabendo mais se é possível... o desgaste do amor.

Créditos: @umfilmemedisse, no Instagram

Em relação aos dois filmes anteriores, "Antes da Meia-Noite" é o mais "pé no chão" e também acho que é o mais triste, ao mesmo tempo que é o que soa mais real. Jesse e Céline já estão na meia-idade e precisam lidar com questões que antes não precisavam, e todas elas são apresentadas sob uma perspectiva realista e sincera, tipicamente humanas. Mais uma vez, os diálogos continuam afiados e bastante honestos, explorando outras faces do relacionamento de ambos e das dificuldades enfrentadas pelo casal. Admito que chorei ao terminar ao filme - não logo depois de ter concluído, mas ao refletir sobre ele pouco tempo depois. Creio que seria muito cômodo seguir a premissa de um relacionamento sempre perfeito, com ares de comercial de margarina, mas o destino de Jesse e Céline é mais crível, mais sincero. Conflitos todos têm, é claro, mas o fato de aqui eles estão em pleno declínio torna tudo mais triste. Poderia facilmente ser a história de um casal conhecido. Não significa que o amor não existiu - é claro que existiu, nós presenciamos tudo! - mas será que ele perdura, suporta a tudo? Assistir à tentativa de ambos de permanecerem juntos, de continuarem lutando um pelo outro, mesmo proferindo palavras duras em seus diálogos, é realmente franco e triste. 

É um filme que, assim como os outros, é muito bonito. Diferentemente dos outros dois, que deixam um gosto agradável de inúmeras possibilidades, quase como uma coisa mágica, esse deixa um sabor amargo no peito. E deixa em dúvida o destino dos dois: eles vão se recuperar, vão se divorciar? Bom, não sei. Só me resta torcer para que, nesse espaço aberto que ficou, tudo tenha dado certo apesar dos pesares. É no que eu prefiro acreditar. 

FIM! 

É isso, pessoal! Uma trilogia muito bonita que vale a pena conferir. Acompanhar Jesse e Céline foi uma bela jornada, e agora guardo eles aqui dentro, comigo ❤


domingo, 6 de abril de 2025

Resenha: "O Menino Maluquinho", de Ziraldo

abril 06, 2025 6 Comments
O MENINO MALUQUINHO
Autor:
 Ziraldo
Editora: Melhoramentos
Número de páginas: 112
Nota: 4,5/5 ⭐


Oi, pessoal! Hoje trago a resenha de um clássico da literatura infantil - que eu, no entanto, nunca havia lido, embora obviamente conhecesse e já tivesse entrado em contato de outras formas (como os quadrinhos e os filmes): "O Menino Maluquinho"! 


Adquiri a obra graças a um projeto da psicóloga Ivna Ariane, o "Aracaju Biblioteca Livre". Ela cede um espaço de seu consultório dedicando-o a trocas de livros: basta levar quantos livros quiser e trocar pela mesma quantidade que você levou, podendo escolher entre os inúmeros que ela possui em suas estantes. Não é legal? Além de incentivar o hábito de leitura, ainda permite que os livros continuem circulando e encantando outras pessoas. Assim, fui com minha mãe e levamos 14 livros para casa (7 para mim, 7 para ela)! Um desses meus livros foi "O Menino Maluquinho". 


A leitura acompanha o menino e suas peripécias de forma muito poética e sensível, com desenhos característicos e adoráveis do autor. 


Era uma vez um menino maluquinho. 

Ele tinha o olho maior que a barriga 

tinha fogo no rabo

tinha vento nos pés

 umas pernas enormes (que davam para abraçar o mundo) 

e macaquinhos no sótão (embora nem soubesse o que significava macaquinhos no sótão). 

Ele era um menino impossível!


É assim que se inicia o livro, nos apresentando a esse menino que além de tudo era muito sabido (cujo único desconhecimento era como ficar quieto!), muito companheiro, muito brincalhão. Que fazia versos, inventava canções, desenhava flores no caderno de desenho, se arrebentava no chão durante suas brincadeiras e parecia viver um relógio de horas a mais.  


"se, de repente, ficasse muito vazio, ele inventava o abraço, pois sabia exatamente onde estavam os braços que queria" ❤


Dessa forma, as palavras e os desenhos de Ziraldo capturam muito bem os sentimentos em torno da infância e algumas experiências desse período, em que o lúdico permeia nossas vidas e a simplicidade cativa e abriga a fonte das maiores felicidades. "O Menino Maluquinho" é o retrato dessa infância saudável, regada a amor, brincadeiras e ausência de maiores preocupações. E é um retrato muito bonito e muito bem feito, permeado por um doce lirismo, que, em suas páginas finais, despede-se do leitor com uma bela reflexão.


E aí, o tempo passou.        

E, como todo mundo, 

o menino maluquinho cresceu. 

Cresceu 

e virou um cara legal! 

Aliás, virou o cara mais legal do mundo!

Mas um cara legal mesmo

E foi aí que todo mundo descobriu que ele não tinha sido um menino maluquinho

ele tinha sido era um menino feliz!


Foi uma ótima leitura, que fiz em menos de meia horinha e que está altamente recomendada: para crianças, para adolescentes e para aqueles que já cresceram e hoje nomeiam-se adultos. "O Menino Maluquinho" é, no fim das contas, um daqueles livros curtos que perduram. E eu gosto desses, dos livros que perduram...