Filminhos de Natal que eu gosto :)
Oi, pessoal! Estamos bem pertinho do Natal, e, pensando nisso, decidi trazer alguns filmes com temática natalina, ou que, pelo menos, se passam no Natal , e que eu gosto! :)
Oi, pessoal! Estamos bem pertinho do Natal, e, pensando nisso, decidi trazer alguns filmes com temática natalina, ou que, pelo menos, se passam no Natal , e que eu gosto! :)
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| NANA - VOLUME 1 Autora: Ai Yazawa Editora: JBC Número de páginas: 192 Nota: 3,7/5 ⭐ |
Oii, pessoal! Hoje trago a resenha do primeiro volume de "Nana", clássico mangá shoujo/josei que encontrei vendendo na UFS (e encarei como destino, então comprei). Ainda estou vendo o anime, mas já estou acabando - e estou viciadíssima! Além disso, a série só animou os 12 primeiros volumes do mangá, que contém 21 volumes ao todo e que está em hiato desde 2009 - infelizmente, pois a autora adoeceu. De qualquer modo, muitos fãs ainda mantêm uma pontinha de esperança de que o mangá voltará, e realmente não custa nada torcer por isso. Enfim!
O primeiro volume de Nana é bastante introdutório, e, como a própria Ai Yazawa (autora do mangá) afirmou ao final do livrinho, é como um prólogo da história, que será mais profundamente explorada nos volumes seguintes. Aqui, nós conhecemos as duas Nanas, protagonistas da história, antes de elas se conhecerem num trem a caminho de Tóquio. Primeiramente, somos apresentados a Nana Komatsu, uma garota extremamente ingênua e romântica, que deseja ir para Tóquio para ficar próxima de seu namorado, Shoji, que se mudou para a cidade em busca de uma vaga em uma faculdade de Artes. Desde o princípio percebemos como Nana K. tem uma visão bastante idealizada em torno dos relacionamentos românticos e como ela pensa que só será completa estando em um - pulando, portanto, de relacionamento em relacionamento, de paixão em paixão. Tal característica, entretanto, será ainda mais abordada nos volumes seguintes.
A outra Nana, por sua vez, é a Nana Osaki. Ela foi abandonada por sua mãe quando era bem novinha e tem uma personalidade mais fechada, sendo vocalista de uma banda de punk chamada Black Stones (Blast). Quando seu namorado e baixista da banda, Ren, se muda para Tóquio após receber um convite para tocar guitarra no Trapnest, banda que estava prestes a lançar um disco, o Black Stones entra em hiato e Nana permanece em sua cidade, rompendo o relacionamento que mantinha com Ren. Entretanto, após cerca de 1 ano, decide ir para Tóquio para perseguir seu sonho de se consagrar como cantora.
Como mencionei antes, é um volume bastante introdutório, para que conheçamos melhor os personagens e nos familiarizemos com suas histórias. Fiquei chocada com a fidelidade com a qual ele foi adaptado pelo anime hahaha Cenas iguaizinhas!! De qualquer forma, sei que muiiiita coisa ainda vai acontecer e que a história vai ganhar mais ritmo daqui a pra frente - e as Nanas irão, finalmente, se encontrar! Creio que é legal ler o mangá (principalmente porque boa parte dos volumes não foram adaptados), pois a história é muito boa e é bom ter contato com a obra original, saber como ela foi adaptada, o que mudou e o que permaneceu igual...
Ademais, algo que gostei bastante no mangá foi o "Cantinho da Junko" (amiga próxima de Nana K.). Tal seção da obra traz conteúdos extras, em que os personagens falam diretamente com o leitor e até mesmo referenciam outros mangás da autora, como "Paradise Kiss", com bastante leveza e bom humor. Uma metalinguagem divertida e bem feita!
Um grande destaque de "Nana" é, além da história em si, a moda. Enquanto eu lia e folheava as páginas, olhava atentamente o estilo de cada personagem, com suas roupas detalhadamente desenhadas e condizentes com a personalidade de cada um. É quase como um personagem a parte. Sério, todos são absolutamente estilosos, e, enquanto eu lia, a vontade de "roubar" o guarda-roupa deles só aumentava hahaha! Existem muitas referências, inclusive, a Vivienne Westood, designer de moda famosa e bastante reverenciada no meio punk, uma vez que muitas das roupas e dos acessório que os personagens usam pertencem à sua marca. Aliás, esse ano a grife lançou uma coleção inspirada em Nana!
Em breve lerei o volume 2 e voltarei para resenhá-lo aqui. Talvez escreva algo para a série também, quando tiver terminado de assisti-la. Veremos, veremos... De qualquer forma, o volume 1 está recomendado!!
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| ANTOLOGIA POÉTICA Autora: Anna Akhmátova Editora: L&PM Número de páginas: 208 Nota: 4/5 ⭐ |
Na inconsciência dos dias me esqueci de como os anos fluem / e não posso mais voltar atrás.
Oi, pessoal! Recentemente terminei de ler "Antologia Poética", que reúne alguns poemas da escritora russa Anna Akhmátova. Peguei esse livro no consultório de minha alergista, que possui um projeto bem legal em que você pode levar um livro e trocar por outro ;) Minha mãe estava olhando os livros, quando, um pouco distante, vi a capa deste e pensei em se tratar de uma fotografia de Virginia Woolf. Ao pedir para olhar o livro e vê-lo mais de perto, percebi que na verdade era um livro de poesias de Anna Akhmátova, que nunca tinha ouvido falar antes (na verdade, nunca havia ouvido falar nada sobre poesia russa!), então achei uma ótima oportunidade para conhecê-la.
Descobri, então, que Akhmátova é um dos maiores nomes de poesia russa, tendo redefinido a forma como mulheres escreviam seus poemas (antes dela, costumavam se espelhar nos poetas homens e na forma como eles escreviam).
Seus poemas são bastante marcados pelo contexto de sua vida e da realidade vivenciada pela Rússia no período em que eles foram escritos (Primeira e Segunda Guerras Mundiais e a paralela ascensão da União Soviética). Bastante marcada pela morte de seu primeiro marido na guerra, pela prisão do filho e pela morte do terceiro marido num campo de concentração, tais sofrimentos estão também expressos em seus versos, censurados durante o regime stalinista. É uma realidade completamente diferente da minha, - mais distante ainda porque é um contexto histórico muito destoante do brasileiro - mas as notas ao final da obra me ajudaram a me situar no contexto apresentado nos poemas e a compreendê-los melhor! Há também uma enorme apresentação no começo do livro, muito bem escrita por Lauro Machado Coelho (responsável também pelas notas, seleção e organização dos poemas), mas admito que só a li quando concluí a leitura das poesias. De qualquer forma, vale bastante a pena, pois passamos a conhecer mais da vida da autora e, consequentemente, de suas próprias poesias.
Todos nós somos um pouco hóspedes desta vida. / Viver é apenas um pequeno hábito.
Houve um tempo em que só sorriam
os mortos, felizes em seu repouso.
E como um apêndice supérfluo, balançava
Leningrado [atual São Petersburgo], pendurada às suas prisões.
E quando, enlouquecidos pelo sofrimento,
os regimentos de condenados iam embora,
para eles as locomotivas cantavam
sua aguda canção de despedida.
As estrelas da morte pairavam sobre nós e a Rússia inocente torcia-se de dor
sob as botas ensanguentadas
e os pneus das Marias Pretas [nome popular dado aos carros usados pela polícia política stalinista, como indica as notas ao final do livro]
Foi uma experiência interessante poder conhecer mais uma poetisa e me debruçar sobre suas palavras! Recomendo!
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| PERFECT WORLD - VOLUME 4 Autora: Rie Aruga Número de páginas: 168 Editora: New Pop Nota: 3/5 ⭐ |
Oi, pessoal! Finalmente li o quarto volume de Perfect World, que estava parado na minha estante desde abril. Depois de alguns livros um pouco mais complexos, estava a fim de algo mais bobinho e rápido, então cri ser um bom momento para prosseguir com a leitura dessa série! Assim, logicamente, esta resenha conterá spoilers dos três volumes anteriores, então siga por sua conta e risco ;)
O quarto volume do mangá inicia após o fim do quadrinho anterior, quando Itsuki termina seu relacionamento com Kawana por não acreditar que era - e que não poderia ser - um bom namorado pra ela. Tentando superá-lo e por acreditar que era algo do "destino", Kawana começa a namorar Koreeda, apaixonado por ela desde os tempos de colegial. Lembro-me de ter gostado dele nos volumes dois e três, mas aqui ele está simplesmente tão insistente e chato!!! Além disso, Kawana também sai de Tóquio e retorna para a sua cidade natal, Matsumoto, uma vez que o câncer de seu pai está muito avançado e ela precisa cuidar dele.
De todos os volumes que li até agora, esse foi o que eu menos gostei. Foi bom para me entreter, mas achei a história bem fraquinha. O começo do relacionamento entre Kawana e Koreeda (tão mal desenvolvido e forçado, na minha concepção), o "quadrado amoroso" envolvendo o casal principal, Koreeda e Nagasawa... tudo isso me faz querer revirar os olhos. Sério! Sei que há pessoas que não gostam e não têm paciência para triângulos amorosos em histórias, mas eu não sou uma dessas pessoas. Eu não me importo com isso, na maioria das vezes, e chego a gostar quando ele são bem trabalhados (como ocorreu com Challengers, filme do Luca Guadagnino). Mas o que ocorre em Perfect World é um quadrado amoroso que soa como um grande enchimento de linguiça.
De qualquer modo, o gancho do final da obra me deixou curiosa para o próximo volume, então veremos o que ocorre... No fim das contas, espero que a história melhore.
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| DEMIAN Autor: Hermann Hesse Editora: Record Número de páginas: 192 Nota: 4/5 ⭐ |
A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. Homem algum chegou a ser completamente ele mesmo; mas todos aspiram a sê-lo, obscuramente alguns, outros mais claramente, cada qual como pode. Todos levam consigo, até o fim, viscosidades e cascas de ovo de um mundo primitivo. Há os que não chegam jamais a ser homens e continuam sendo rãs, esquilos ou formigas. Outros que são homens da cintura para cima e peixes da cintura para baixo. Mas, cada um deles é um impulso em direção ao ser.
Dessa forma, somos apesentados a uma série de reflexões que se debruçam sobre a dualidade do mundo e do nosso interior, sobre a religião e sobre a essência de nós mesmos. Assim como Sinclair, somos levados a nos questionar se estamos no caminho de nosso destino, se estamos, de fato, caminhando em direção a sermos verdadeiramente nós. Porém, quem somos, afinal? E "Demian" narra - entre outras questões abordadas, claro - justamente isso, essa nossa constante e eterna descoberta de nosso ser, e também a coragem necessária para nos descobrirmos e sermos nós mesmos, além da necessidade de aceitar-se nesse processo. Tal atmosfera introspectiva perdura durante toda a leitura, e me lembrou em certos momentos de Evangelion. Há uma metáfora marcante no livro, por exemplo, que diz o seguinte: "A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir um mundo." - antigas crenças, antigos comportamentos, antigos ciclos, etc. Tal passagem me lembrou bastante o apresentado em "The End of Evangelion" e uma das falas do longa: "O destino da destruição é também a alegria do renascimento". Além disso, toda a discussão em torno do "ser" e da busca por nossa identidade e suas facetas - sombria e luminosa - também me lembrou demais o anime! Outra coisa que achei bem interessante diz respeito ao nome do próprio protagonista, algo que não tinha percebido enquanto fazia a leitura, mas que só notei graças a um vídeo (excelente, por sinal!) que vi do canal "Ler Antes de Morrer". Nesse sentido, a ambiguidade entre aquilo que é "iluminado" e aquilo que é "sombrio" está expressa no nome Sinclair também, pois "Sin" é "pecado" em inglês e "Clair" significa "claro" em francês, o que demonstra como tal antítese está profundamente presente em sua vida - em seus anseios, descobertas, pensamentos, alegrias...
Esse Deus da antiga e da nova Aliança é, antes de tudo, uma figura extraordinária, mas não o que realmente deveria ser. Representa o bom, o nobre, o paternal, o belo e também o elevado e o sentimental... está bem! Mas o mundo se compõe também de outras coisas. E toda essa parte do mundo, toda essa outra metade é encoberta e silenciada. Glorifica-se a Deus como Pai de toda a vida, ao mesmo tempo em que se oculta e se silencia a vida sexual, fonte e substrato da própria vida, declarando-a pecado e obra do Demônio. Não faço a menor objeção a que se adore esse Deus Jeová. Mas creio que devemos adorar e santificar o mundo inteiro em sua plenitude total e não apenas essa metade oficial, artificialmente dissociada.
Ademais, a narrativa de "Demian" foi bastante influenciada pelos eventos da Primeira Guerra Mundial (a obra foi lançada em 1919, e a guerra teve seu fim em 1918) e pelo trabalho do psicanalista Carl Jung, características expressas nas metáforas apresentadas (como a já citada nesta resenha) e no mergulho psicológico do personagem.
Enfimm! Foi uma leitura instigante e eu recomendo :)
Quando odiamos um homem, odiamos em sua imagem algo que trazemos em nós mesmos.
Nunca havia falado sobre Evangelion aqui no Sementes Literárias - e é uma das melhores coisas que assisti na vida! Vi a série completa (26 episódios) ano passado, e finalizei em junho de 2024. Desde então, faltava-me assistir ao filme que complementa o final da série, "The End of Evangelion", e a razão para ter demorado tanto para vê-lo era que me faltava coragem: sabia que era mais violento e cru em relação ao seriado (que já é bastante pesado - pelo menos para mim), e receava assisti-lo e sentir mais intensamente o desconforto que Neon Genesis Evangelion me causou, com seu caráter profundamente psicológico e existencial que ao mesmo tempo aflige e fascina, desestabiliza e atrai. Entretanto, ontem ~finalmente~ assisti ao longa-metragem, então agora sinto que posso me debruçar mais sobre o anime e falar ~finalmente~ sobre ele aqui. Ainda existe uma série de filmes que reconta a história original de um modo diferente, os Rebuilds, mas estes ainda não vi. E há os mangás (que quero muito, mas também ainda não li). Então, dito isso, focaremos na série original e no filme que a finaliza (com spoilers, avisando desde já).
Neon Genesis Evangelion se passa em um futuro distópico, em que o mundo quase acabou após um evento denominado "Segundo Impacto", que dizimou metade da humanidade. Na espreita de um Terceiro Impacto, e, consequentemente, do apocalipse, Shinji Ikari, um menino de 14 anos depressivo, é convocado por seu pai ausente para pilotar uma espécie de "robô" gigante chamado EVA, e, assim, derrotar seres extraterrestres denominados "Anjos", que constantemente atacam a Terra (e que já a atacaram anteriormente, no Segundo Impacto). Ele passa, então, a integrar a equipe de pilotos da NERV, associação militar comandada por seu pai, e a ser tutelado por Misato Katsuragi, membro importante da instituição. Além dele, conhecemos também Asuka e Rei, pilotas de outras unidades EVA.
Existem muitas coisas além dessas envolvidas no enredo de Evangelion, mas meu objetivo aqui não é fornecer um resumo completo acerca do anime, nem, muito menos, tentar fornecer alguma espécie de "explicação" sobre o seu conteúdo. Comentei brevemente sobre a história somente para contextualizar o anime. Aliás, não creio que poderia explicá-lo, visto que não entendi plenamente tudo que se passou (alguém entendeu?). Evangelion, na minha concepção, não é para ser completamente entendido, como se fosse uma uma obra objetiva com um enredo e personagens planificados e, portanto, unidimensionais - muito pelo contrário! -, mas é para ser refletido e sentido. E, mesmo quando não entendia exatamente o que se passava, sentia profundamente. Mexe muito comigo. Além disso, existem muitas interpretações em torno do anime, porém nenhuma verdade absoluta. Gosto de ver as interpretações das outras pessoa, e talvez seja um pouco disso que esteja fazendo aqui. Na verdade, sabia que queria falar sobre Evangelion e o estou fazendo, mas sem um objetivo muito claro. Não é uma recomendação - embora esteja altamente recomendado. Não é um resumo, não é uma resenha, não é uma explicação. Acho que só queria escrever sobre o que senti ao ver Evangelion e talvez, dessa maneira, falar por que gosto tanto. É, acho que é isso. A manifestação da necessidade de escrever sobre algo que me toca em um lugar profundo.
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| "Quem sou eu? O que sou eu? O que sou eu? O que sou eu? O que sou eu?" |
Acho curioso como muitas pessoas iniciam a série pensando ser este um anime meramente de ação e de luta de robô gigante (não deixa de ser, mas não é só isso), e então, a partir da segunda metade, o anime muda o tom e assume de forma mais escancarada sua veia de horror psicológico, surpreendendo essas mesmas pessoas. Bom, essa mudança não me surpreendeu, porque já fui assistir sabendo que era denso, e o enxerguei assim desde o princípio hahaha
Enxergo Evangelion como a jornada de Shinji em aceitar-se. Aceitar a si mesmo, aceitar aos outros, aceitar a própria realidade. Muitas pessoas detestam o Shinji, porque ele é um personagem extremamente vulnerável, inseguro, carente, em momentos de desespero fez coisas muito ruins em "The End of Evangelion" e sempre quer fugir daquilo que o amedronta. Ele é bastante odiado, mas não consigo odiá-lo. Não concordo com tudo o que fez e recrimino o que ele cometeu no filme - talvez seja bom deixar claro -, porém não creio que seja justo demonizá-lo como tantos fazem, tendo em vista o contexto apocalíptico no qual ele estava inserido, o seu ódio por si próprio, o medo paralisante e o desespero por algum tipo de sensação. Creio que desgostam do Shinji porque enxergam nele aquilo que sentem repulsa sobre si mesmos, mas eu gosto que ele seja um personagem tão falho e humano. E gosto muito do final da série, em que ele reflete sobre si mesmo e sobre e a importância dos outros em nossas vidas.
Gosto das reflexões que o anime propõe a partir dos personagens. A busca constante pelo "eu", o senso de individualidade e coletividade, a dificuldade de confiar nos outros e em si mesmo, o desejo intrinsicamente humano de ser feliz - e a percepção de que nem sempre ele se concretiza -, a necessidade de se compreender e de ser compreendido, entre tantas outras coisas. Um dos conceitos apresentados em Evangelion que acho muito interessante é o "dilema do porco-espinho", originalmente apresentado por Arthur Schopenhauer: os porcos-espinhos precisam compartilhar calor uns com os outros, mas, no processo, acabam se espetando. Ao tentarem se afastar, voltam a sentir frio e necessitam novamente se aproximarem. É preciso, portanto, encontrar uma distância equilibrada entre eles. Tal como os porcos-espinhos, os seres humanos precisam uns dos outros para viverem, mas eventualmente acabam causando dor e sendo também feridos. Porém, privar-se do contato e da vulnerabilidade necessária para isso é também sofrer. Shinji, por exemplo, afasta-se das pessoas para não se machucar, mas isso não o priva do sofrimento - muito pelo contrário.
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| Créditos: Cinematologia |
Vale ressaltar que Shinji não é o único personagem complexo do anime: todos possuem suas questões. Asuka, por exemplo, se paga de durona e é rude com aqueles ao seu redor, mas é uma garota com uma autoestima extremamente baixa e que precisa de constante atenção e validação externa, sentindo necessidade de sempre se provar. Rei, por sua vez, é um clone adolescente criado por Gendo Ikari (pai de Shinji) da esposa morta dele, Yui, e, assim, ela busca constantemente entender quem ela é no mundo. Já Misato possuía uma relação complicada com o pai, que faleceu durante o Segundo Impacto, e busca vingança dos Anjos ao trabalhar na NERV, além de buscar preencher o vazio que sente com bebida e sexo. E ainda há mais coisas que perpassam a existência desses personagens e a de outros que não mencionei (ou não detalhei) aqui.
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| "Você só quer suavizar sua alma através de escapes temporários" |
Talvez por isso Evangelion mexa tanto comigo e com outras pessoas, porque nos faz imergir na psicologia de seus personagens e gera empatia, além de nos obrigar a encarar facetas que talvez existam em nós mesmos e não gostemos de encarar. Em determinado momento de "The End of Evangelion", por exemplo, chorei. O filme é muito cru, brutal e violento. Senti vontade de chorar quando toda a humanidade é condensada em uma única existência, sem qualquer tipo de distinção entre os humanos - e sem, portanto, individualidade e o sofrimento que uma existência individual implica - e Shinji descobre que este mundo que ele internamente desejou não o torna feliz. Como ele mesmo diz: "Só senti dor quando existia naquela realidade. Por isso queria tanto fugir dela. Mas não adiantou nada.". Fugir da dor não é extinguir a dor, e não há uma existência livre de pesares. Mas, do mesmo modo que há espaço para tristezas, somos também capazes de cultivar a alegria e senti-la pulsar em nós.
Depois realmente chorei, no diálogo entre Yui e Shinji, que transcrevi aqui embaixo:
- Não se preocupe, todos têm o poder de se reerguer e de continuar vivendo. Qualquer lugar é o paraíso desde que queira viver. Afinal, todos estão vivos. E, enquanto for assim, todos têm chances de serem felizes. Enquanto houver o Sol, a Lua e a Terra, tudo dará certo. Você vai ficar bem?
- Ainda não sei onde minha felicidade está. No entanto, ainda estou aqui, e vou pensar a partir de agora no porquê de estar vivendo. Mas sei que sempre chegarei às mesmas conclusões óbvias: para continuar sendo eu mesmo.
Como já mencionei antes, também gosto muito do fim da série, em que o psicológico dos personagens é ainda mais explorado e que possui um tom mais abstrato do que o filme. Muitas pessoas não gostaram do fim da série (e essa foi, imagino eu, uma das razões para terem feito o "The End of Evangelion" depois), talvez porque ele não explique de fato o que ocorreu durante a instrumentalização humana (o termo usado no anime para definir o plano de juntar todos os seres humanos em uma única consciência e, assim, formar uma espécie de deus supremo) e o Terceiro Impacto - coisas que são abordadas de forma mais gráfica no longa-metragem. Mas eu amo o fim da série, amo muito mesmo!! E amo os questionamentos que ele levanta, amo como ele explora de forma ainda mais aprofundada os dilemas dos personagens, amo como ele conduz a jornada de Shinji rumo à aceitação de si mesmo e dos outros em uma sequência estonteantemente bem escrita e com um estilo visual criativo e único (e olha que o orçamento no final de Neon Genesis Evangelion estava quase esgotado, o que influenciou bastante nesse aspecto).
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| "Ao olhar as barreiras entre você e as outras pessoas, você visualiza sua própria forma" |
Aliás, os visuais de Evangelion merecem destaque também! Acho incrível como conseguiram trabalhar tão bem com um orçamento apertado. Gosto muito das cenas que mais destoam do convencionalmente apresentado (e talvez, se você já assistiu ao anime, saiba exatamente do que estou falando), como ocorreu em vários momentos a partir da segunda metade da série. Existe uma certa psicodelia por detrás de algumas dessas cenas, e considero isso fascinante e belo. Em "The End of Evangelion" não é diferente, e os aspectos visuais captam bem a estranheza que rodeia o enredo, a alma caótica de um apocalipse, o desespero de sobreviver nesse contexto e de, ainda, escolher permanecer vivendo apesar de tudo.
Enfim!! Estou feliz em falar sobre essa obra-prima (e não considero isso uma hipérbole de minha parte, nem uma definição enviesada pelo meu olhar de fã) aqui no Sementes Literárias, algo que já quis fazer em vários outros momentos e não fiz porque, principalmente, estava no aguardo de ver o filme. E é isso! É uma obra pesada? Sim, uma das coisas mais pesadas que já vi. E, no entanto, vale cada segundo. E recomendo sempre, e continuarei recomendando - agora também no Sementes. Obrigada por ler até aqui :)
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| "A única pessoa que pode simpatizar com você e te entender, é você. Então, seja bom com você mesmo" |
P.S: Sabia que hoje, 27 de outubro, o Sementes Literárias completa 7 aninhos de vida?? Pois é!! Muita coisa. Ao longo desse tempo, escrevi mais de 200 publicações, e me orgulho muito do que construí (e continuo construindo) nesse espaço que guardo com tanto afeto dentro de meu coração, e que representa uma importante parte de mim. Publicar um textinho sobre Evangelion - que também ocupa um lugar de importância em minha vida - talvez seja um modo de comemorar: falando sobre algo que amo, num espaço que amo e que me faz tão bem 💚 Obrigada a todos os leitores e leitoras que acompanham o blog e que me apoiam nisso aqui (e um obrigada especial a mim mesma, também)! :)
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| O RETRATO DE DORIAN GRAY Autor: Oscar Wilde Editora: Darkside Número de páginas: 320 Nota: 4,8/5 ⭐ |
Então contemplava ora o rosto maligno e envelhecido na tela, ora o rosto belo e jovem que sorria no vidro polido. A nitidez do contraste estimulava seu senso de prazer. Cada vez mais enamorado da própria beleza, cada vez mais interessado na corrupção de sua alma.
Recentemente concluí a leitura de "O Retrato de Dorian Gray", clássico de Oscar Wilde. Havia lido a adaptação quando tinha 10 anos de idade, mas quase não me lembrava da história. O que mais me recordava era da sensação de ter ficado bastante instigada e de não ter conseguido largar o livro! Então, pensando em ler mais clássicos, comprei a versão original da obra em abril desse ano e cheguei a ler os dois primeiros capítulos na época - porém, no fim das contas, "guardei-a para posterioridade". Não senti que aquele era um bom momento para a leitura: não estava me conectando com o que estava escrito, achei a linguagem demasiadamente "floreada" (algo que não estava buscando naquele momento) e, portanto, não estava aproveitando o ato de ler. Entretanto, reconheci que a história era realmente interessante e decidi lê-la no futuro, quando estivesse mais na "vibe". E o momento chegou!!
Esse período, na minha faculdade, peguei uma matéria optativa chamada "Tópicos Especiais em Estética e Pólítica", em que discutimos a relação entre arte e política. A primeira obra que tivemos que ler foi - adivinha - justamente "O Retrato de Dorian Gray", um dos principais romances representantes do Esteticismo - movimento que afirmava que a arte não serviria à moral, à política, à religião, nem a qualquer outra coisa senão a ela mesma, e que ela seria, logo, seu próprio fim. A leitura, dessa vez, fluiu muito bem e não me incomodei com a linguagem (que não deixou de ser "floreada", mas que agora consegui apreciá-la mais)! :)
Também gostaria de dizer que essa resenha tem alguns spoilers, mas siga por sua conta e risco.
A edição que comprei (belíssima, por sinal), da Darkside, traz a versão sem censura da obra, que foi censurada em decorrência do moralismo da época em que foi lançada e dos escândalos que permearam a vida de Oscar Wilde. Além disso, também conta com um prefácio bem completo, contextualizando o livro no seu período de lançamento, na vida do autor e no movimento Esteticista, e diversos conteúdos extras ao final da obra, como várias notas que complementam a leitura, fotografias de Wilde, poesias traduzidas, um ensaio escrito por Oscar, resenhas críticas que "O Retrato de Dorian Gray" recebeu quando foi publicado - e as respostas do escritor -, um texto (muito bom, por sinal) sobre o julgamento de Oscar Wilde (acusado de praticar sodomia e de ser homossexual, e de que essas questões foram expressas também em suas obras - como em "O Retrato de Dorian Gray" ), etc. É uma edição muito bem trabalhada, contendo também ilustrações que enriquecem a experiência de leitura.
Com relação à história, acompanhamos Dorian Gray (de início um rapaz ingênuo) e a sua decadência moral ao longo das páginas da obra. Desse modo, somos inicialmente apresentados a Basil Howard, pintor que se encanta por Gray - nutrindo pelo jovem uma admiração profunda, exacerbada e platônica - e que produz o retrato que nomeia o livro. Conhecemos também Lorde Henry (que internamente apelidei de "palestrinha", e que me fez passar muita raiva), amigo do artista e que exerce grande papel de influência na vida de Dorian. Assim, ao ver o retrato que Basil pintou dele, e, influenciado pelo discurso de Lorde Henry em torno das vantagens da juventude, dos prazeres, da beleza e dos males do envelhecimento, o protagonista deseja, ingenuamente, que a pintura envelheça em seu lugar e que ele permaneça eternamente jovem. Surpreendentemente, é atendido, e o retrato sofre modificações de acordo com as atitudes vis que comete, sendo um registro de seus pecados e um espelho de sua alma decadente. Enquanto isso, sua aparência permanece intacta, embora a sua consciência - impressa nas transformações marcadas no retrato - esteja perdida em hedonismos e em fascínio pelo cometimento de pecados.
Bem, do momento em que o conheci, sua personalidade teve a mais extraordinária influência sobre mim [Basil]. Admito que experimentei uma louca, extravagante e absurda adoração por você [Dorian Gray]. Sentia ciúmes de qualquer um com quem falasse. Eu o queria apenas para mim. Sentia-me feliz apenas com você. Quando estávamos afastados, você ainda se fazia presente em minha arte. Tudo isso era tolo e errado, e ainda é. É claro que nunca permiti que soubesse disso, seria impossível. Você não teria compreendido; eu mesmo não compreendo.
É realmente um enredo bastante instigante, e Oscar Wilde escreve de forma muito bonita. Vi muitas pessoas descrevendo a obra como "enfadonha" (assim como li em algumas críticas que constam no fim dessa edição), porém não concordo. Há, sim, momentos que considerei monótonos - como quando, no capítulo IX, há uma enorme descrição acerca de joias e tapeçarias, e histórias envolvendo essas coisas, mas nada que diminua o quanto gostei da leitura ou que seja suficientemente presente para que eu a caracterize como "enfadonha". Na realidade, achei bastante empolgante, especialmente o final, que em certos aspectos me surpreendeu! Existe uma atmosfera em torno de "O Retrato de Dorian Gray" que me fascinou, uma atmosfera de horror e de decadência que instigam a querer prosseguir com a leitura, a querer descobrir como a obra irá se desenrolar. Além disso, o livro levanta uma série de reflexões - provavelmente não de forma proposital, visto que o próprio Oscar Wilde afirma, em uma de suas respostas às críticas, que escreveu para o próprio prazer, não para moralizar alguém - acerca da arte, da beleza, da própria natureza humana, dos prazeres, dos pecados, etc. Imerso em sua espiral pecaminosa, por exemplo, Dorian Gray decide destruir o registro físico de sua trajetória sórdida, mas, no processo, mata a própria alma e põe fim à própria existência. Seus pecados não estão desassociados de sua vida, que, exacerbadamente hedonista, foi vazia, má, criminosa e teve um fim trágico.
Como Oscar Wilde mesmo disse, em sua segunda resposta à crítica publicada na St. James Gazzete:
"O pintor, Basil Hallward, ao adorar a beleza física demais, como a maioria dos pintores, morre pelas mãos daquele cuja alma criou vaidade monstruosa e absurda. Dorian Gray, ao levar a vida de mera sensação e prazer, tenta matar a consciência e, em tal momento, mata a si mesmo. Lorde Henry Wotton busca ser meramente um espectador da vida. Ele descobre que, aqueles que rejeitam a batalha ferem-se muito mais do que aqueles que participam dela.
Sim, há moral terrível em 'Dorian Gray'; uma moral que os lascivos não serão capazes de encontrar, mas que será revelada a todos de mente sã. Erro artístico? Temo que sim. É o único erro do livro."
"O Retrato de Dorian Gray" é, por fim, um livro muito bom cuja leitura fico feliz em ter feito, e a edição que li está um primor! Recomendo!! :)
Estava sempre apaixonada por alguém e, como tais paixões nunca eram correspondidas, preservava todas as suas ilusões.

Oi, pessoal! Estou oficialmente de férias da faculdade, e durante esse período pretendo me dedicar mais ao blog - que anda um pouco de lado,...